Som, fúria e zumbido

E não adianta levar o mundo nas costas

A vida é cheia de som e fúria

Frejat

No exato instante do relâmpago, o estrondo. Segundo a física, essa afirmação é impossível. A velocidade da luz é, no mínimo, 240 vezes maior que a do som. Impossível, também, não me valer da alegoria do nonagenário Mauricio de Souza (parabéns). Na dita tirinha, o medo do personagem Cebolinha era ser fulminado por um raio. Daí, o Franjinha dispara:

– Quando você vir o clarão de um raio (relâmpago), comece a contar o tempo: cada segundo equivale a 343 metros – que é a velocidade do som. Aí chega o estrondo (trovão). Outro clarão, outro estrondo. Se durante a tempestade o número de segundos for aumentando, é porque ela está se afastando e você vai ficar a salvo.

Conhecimento salva, ou pelo menos, evita o pânico desnecessário. Som e fúria na natureza.

 Não li Som e Fúria, de Willian Falkner, mas o título me impressiona. Mesmo em sentido figurado, estrondos ou simples ruídos, cravejado de luzes, reflexos e onisciência, sempre me fascinaram em obras de arte. Na fotografia? O átimo do disparo registra a potência de uma natureza tão violenta quanto magnífica, e isso é único.

 A impressão da instantaneidade dos eventos e estar no olho do furacão (para ficar na alegoria dos fenômenos meteorológicos) camufla nossa percepção de calmaria. No mínimo enganosa, pode mudar em instantes pelos acontecimentos ao redor. A ignorância é bênção e maldição. Som e fúria no Caribe.

Abrigada no décimo andar de um edifício com para-raios, qual é o problema de apreciar o magnífíco espetáculo de uma tempestade? A natureza é som e fúria desde tempos imemoriais, e os dinossauros aprenderam isso de forma trágica. Só os mosquitos sobrevivem.

Essa lenda da convivência pacífica e amável só existe na cabeça de quem não luta pela sobrevivência em ambiente sempre hostil. Enfim, desejo que você tenha a quem amar, pra (re)começar. Som e fúria na favela.

Em  outros novembros, chegaram meu pai, Mariana, Luiza e sempre o gosto de infância. Uvas iguais às da parreira  cultivadas no quintal de casa, agora são encontradas no comércio de frutas da cidade.

Uva passa não precisa esperar novembro. Está disponível o ano todo. Se você gostar, coloca no arroz, no iogurte, na farofa ou coma um bocado purinha. Corretor de ansiedade, segundo a Adriana, que não chegou à aposentadoria. Antes disso, depois de férias com a família, não aguentou a tempestade de felicidade e morreu, talvez de Zica. Zicada ela, diz o  zumbido do mosquito.

Não adianta levar o mundo nas costas. A vida é cheia de sons e de fúria. Gritaria raivosa atrai muita atenção, mas não faz nada de útil de um lado ou de outro. Zumbido.

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