Depois de quanto tempo uma paisagem modificada incorpora o novo? Depois de quanto tempo consideramos crenças, coisas e pessoas legitimadas para estar ali?
Em penúltima análise: florestas em pé geram crédito de carbono e mantêm as atividades ecônomicas sem alteração, certo? Seria mais eficiente, ao invés de jogar a culpa no cidadão comum, terem a delicadeza de não fabricar coisas desnecessárias. Quem preserva ganha incentivos de quem destrói, para consumo de quem não vive em lugares preservados. Adultos impotentes são consumidores finais de uma indústria de destruição que adoça nossa vida agora.
Ficou zonzo com o rodopio, ou giro, ou looping? Seríamos nós hipócritas moradores de grandes e médias cidades? Usufruímos do conforto produzido à custa de destruição e aplacamos a consciência rezando pelo fim do desmatamento, da fome, do extermínio de povos em nome de sei lá o quê.
Torre de Babel às avessas: falamos a mesma língua e ninguém se entende.
Garrafa plástica e animais de estimação compartilham o mesmo nome PET. A primeira emporcalha e o segundo alegra nossa vida – mesmo que o preço a pagar seja alimentá-lo com rações ultraprocessadas, e diverti-lo com brinquedos de plástico que serão destruídos e os restos jogados no lixo.
Quem precisa de um novo sagrado quando o velho fez seu papel até aqui? Religião, do verbo religar ou reler (examinar)? De um jeito ou de outro confronta profano e sagrado. Volta o rodopio: sagrado pra quem? Profano pra quem? Teocentrismo ou antropocentrismo?
Trocam as figuras de lugar: o que já foi centro vai para a direita de quem olha para o altar. O centro fica para figuras que já habitavam o lugar, colocadas no paraiso do povo que chegou depois. E esse paraíso tem cobras – sempre teve – e o homem foi expulso de lá.
As pessoas em oração olham para a nuca dos pares, guiadas por alguém de costas para o paraíso.
O ser humano quer, de verdade, salvar o mundo, ou sua pele?
Nem pude concluir ontem porque estava na rua mostrando indignação dos “ôxes em cima de eitas”. E aí, quem estava também? Os mesmos da luta contra AIs 1, 2, 3, 4 e 5: Chico, Gil, Paulinho da Viola e Caetano. Djvan também. Minha geração está on, mas até quando?
Novo rodopio e valha-me Deus!

