Sobre cães, lugares e crianças

As crianças não dizem: “Eu tive um dia difícil. Podemos conversar?”

Elas dizem: “Você brinca comigo?”

Lawrence Cohem

 

Sobreviventes estão em toda parte, a menos que já tenham sucumbido pelas mãos de um predador ou atraídos pela flauta mágica de Hamelin – versão para cães e crianças.

Existem excluídos em todo lugar e são classificados conforme normas de cada bolha. Assim, ao ser cancelado – desculpe a mesmi(mimi)ce – de uma é preciso  procurar outra, mesmo que seja uma ilha, embaixo da ponte ou atrás do Theatro Municipal de São Paulo. Há quem reclame de não estar em bolha alguma e outros preferem assim.

Em tempos de  COP30, os povos mais afetados pelas mudançan climáticas estão fora da bolha dos lucros exorbitantes, da  tecnologia de ponta e do poder político. Lutam com as armas que não têm.

Amor vemos entre cães e seus protegidos/protetores. Nem dono, nem tutor, muito menos pais. A grandeza canina reside no fato de saberem o que é reciprocidade. Eu te protejo, você me protege. Vivo conforme o outro vive. E parecem dizer ao fim de um dia difícil: “brinca comigo?”, como as crianças.

Na ilha das Flores – lugar que ficou famoso por conta de um vídeo  chamado de documentário – há uma flauta que, mágica ou não, atrai  três cães, uma criança e uma mulher. O lixo, ou recicláveis, como querem amenizar alguns, está por toda parte. E os barracos que chamam de moradia também. Pode não ter nada lá, mas pertinho sobra muito e chega rápido.

Quando meus filhos tocavam flauta (era só Asa Branca) ou pianinho infantil (devidamente validado pela tia professora de piano), os cães faziam coro de uivos, não sei se de tédio ou apoio moral. Bichos mais solidários que gente.

Na maior cidade do hemisfério sul do planeta, sob um elevado – eles existem aos montes, onde já não há como alargar avenidas – o cãozinho dorme envolto pelo braço do homem, dividindo o mesmo cobertor. O lugar é barulhento, mas garante uns recicláveis para vender e alimentos prontos, que seriam desperdiçados pelos bares e restaurantes.

Na praça João Mendes, bem atrás do Theatro Municipal de São Paulo, outra dupla humano/canina descansa sob uma árvore, lado a lado. De repente, o cão assume o papel de protetor contra um enorme  Gold Retriever – mais pacífico impossível – que passeia devidamente preso a uma coleira.

Ao jovem que aparentava ser de classe média – ainda assim invasor do território – só restou  afastar o SRD, que voltou – também pacificamente – para o lado de seu dono, ciente do dever cumprido.

Mudam os lugares. Cães e crianças seguem sendo, apesar dos adultos.

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