Olhos claros e penúltima invenção

Desde a década de 1950, a matéria plástica – como era conhecida – é um marco da civilização. Demorou pouco mais de meio século da descoberta do petróleo como combustível, para o encantamento por embalagens bonitas, leves e inquebráveis, caírem no gosto da população mundial; pelo menos da parcela de olhos claros. Naquele momento era a vedete que tinha vida longa. Muito longa. 

Não acabavam nunca, então a indústria resolveu socar tudo o que era fabricado em sacos, garrafas e potes plásticos. Era a vida plastificada que as donas de casa – e  os  fabricantes – pediram a Deus. Lá iam as mulheres, supostamente libertas do jugo doméstico, gastar seu dinheiro em inutilidades do lar (de plástico, claro). Até a marmita que levavam ao trabalho, antes de alumínio, se atualizou. Copo de liquidificador já não quebrava.

O jeito foi diversificar a produção investindo  em descartáveis. Em eventos populares de gastronomia, festas e situações de emergências climáticas,  entram em cena os pratos, copos, canudos e talheres  de plástico – não mais de papel ou madeira. Cerâmica, vidro e metal foram esquecidos. Contrastes da civilização.  Afinal, a maioria das pessoas é  descartável e insiste em viver e se divertir assim mesmo.

Praticidade e fim do desmatamento. Será? Muito disso poderia ser  fabricado a partir de árvores  plantadas, não fruto de erradicação de mata nativa. O descarte voltaria ao solo e teria degradação rápida. Outra penúltima invenção?

Aí, como num passe de mágica, o clima enlouquece, as chuvas resolvem chorar toda a sua mágoa sobre as cidades e o que vem à tona? Uma infinidade de coisas de plástico boiando, libertadas dos armários das casas, prateleiras de comércios e depósitos de fábricas.

Inundadas as casas, o que fazer? Sem utensílios, a comida chega pronta de algum lugar, é servida em pratos de plástico (ou pior,  isopor), comida com talheres idem e a água é bebida direto das garrafinhas.

Isso tudo acaba com a necessidade de lavar louça;  a água limpa é pouca. E os olhos claros do menino parecem dizer:

– Como posso não ser feliz? Pelo menos essa água não foi contaminada e está a salvo na garrafinha e a comida está quentinha.

Já foi dito que ingerimos microplástico vindo das embalagens, mas e daí? Cobre-se um santo, descobrindo outros.

Quando a água baixar depois da enchente, alguém há de pensar em alguma coisa. Inventam de tudo para resolver problemas que não existiam antes da penúltima invenção.

Olhos claros miram o futuro. O que a criança estará vendo?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima