A fotografia sozinha não muda nada, mas pode provocar debates e ações
Sebastião Salgado
A serventia da arte já rendeu verdadeiros compêndios. E, se vamos prestar homenagem a Sebastião Salgado com palavras, as fotografias servirão de inspiração e ponto final. Ou inicial, como queiram.
Do homenageado, confesso que passei – só recentemente – a ouvir declarações, entrevistas, assistir a documentários, sempre de olho nas fotos e ouvido nos dizeres. Impossível separar imagens fotográficas que registram um momento único, sem tentar ligá-las a palavras e pensamentos que habitavam o coração ou alma do fotógrafo naquele exato instante. Qual a luz perfeita? Diria, como leiga, que é aquela que ressalta o modelo, o objeto central. O que diferencia arte de não arte é jogo entre luz (que mostra) e sombra (que esconde) na fotografia, assim como na escrita, ou na pintura, na escultura, no cinema.
Aquele momento do disparo do obturador é único na fotografia. Embora haja um planejamento minucioso, um propósito, motivação e objetivos, o fotógrafo até sabe aonde vai, mas não o que vai encontrar. Aprendi muito com as colocações precisas de Sebastião Salgado, que simplifiquei aqui.
Num dado momento, enquanto ouvia o relato, um video mostrava fotos e – pasmem! – juro que algumas eram de indígenas em pé sobre canoas, remos nas mãos, em plena Amazônia. Aí a homenagem da fotógrafa fez sentido para mim. A imagem de uma canoa caiçara ou indígena, em que homens manejam em pé é arte por si só. A mesma cena foi colocada dentro de um gasômetro inundado, com ares de rio. E se fosse um caiaque ou uma prancha de stand up ajudando no socorro às vitímas das enchentes que assolaram Porto Alegre em 2024?
É inevitável, nesse ponto, questionar: existe lugar para o hibridismo na arte? E qual seria o papel da
tecnologia nessa composição?
É preciso voltar no tempo, não muito, para entender que chamamos de arte desde a rupestre, esculturas no mármore, pinturas de retratos – de pessoas, paisagens, ambientes –, música e fotografias, que, em movimento, deram origem ao cinema. As diferentes linguagens são materialmente registradas e a oralidade na transmissão de histórias para as gerações vindouras, em cada aldeia, era suficiente. Com o aumento das populações e criação de centros de saber, foi preciso registrar em palavras escritas, o que a oralidade não dava mais conta de fazer. Surge a literatura.
A civilização é o acúmulo de erros e acertos, avanços e retrocessos, e gente, muita gente abarrotando o planeta e demandando ações afirmativas. No entanto, as obras de arte continuam em um nicho de mercado, acessível a meia dúzia de endinheirados. Voltamos à questão inicial.
Parodiando Sebastião Salgado, a arte, sozinha, não muda nada. Então, divagar sobre a gênese do seu papel nos sirva para homenagear e nos deleitar. A vida presta.

