Com meus botões

Já não é tão simples pensar com meus botões, pelo menos com os usados para unir (ou abotoar) peças do vestúário.  Não abotoamos! Clicamos,  as portas se abrem e o mundo se faz! Ou se desfaz. Apertar um botão tem esse poder (lembram do famoso botão vermelho que assombrou a humanidade em tempos de Guerra Fria?). 

Lá vai a menina envolver o bebê em uma espécie de manta sem botões (shuka, segundo o Google) e amarrar de forma a sustentar o corpinho dele junto ao seu. Unidos os corpos, os corações parecem bater uníssonos. Será que o andar da menina acelera seu coração e alcança o ritmo do bebê?

Carregar um bebê assim, além de proteção, traz um contato pele a pele, que foi interrompido quando saiu do ventre materno. É preciso alimentar esses corpos. Pés e mãos precisam estar livres pra ir e ir, agir e fazer crescer a criancinha. Dizem que o umbigo é um botãozinho ou o arremate do corpo.

Não se trata simplesmente de cortar o cordão umbilical – real ou imaginário –. Sem a cicatrização física e psíquica, não teremos autonomia. 

Alguns dos meus botões foram embora, outros se abrigaram em potinhos e já não conversam com os diferentes que alí estão. Em um evento de traje formal, fico imaginando o que meus botões têm a dizer de mim para os botões dos outros. Enquanto isso, troco ideias com a falta deles nas roupas e o excesso que me cerca: teclas.

Diante da tela, o convite: “clique aqui”.

Aperta-se tecla para alcançar um objetivo, sempre. O resultado só é bom se a tecla for a certa.

Pessoas avançadas em anos – usar essa expressão já diz tudo – ou simplesmente sem o devido letramento digital, apertam um botão errado e são levadas do céu ao inferno em um mísero segundo de hesitação:

– Apaguei tudo! – ou pior – pra onde foi? 

Um click e chegou até nós a menina da foto e o bebê que carrega. Sem Waze, sem teclas, lá vai ela trocando ideias com botões imaginários. Nem os de flores estão à vista.

Aridez, resistência, amparo, cuidado. O que mantém as pessoas unidas não são os botões (ou teclas).

Supostamente, estamos diante de uma tribo que ignora a existência de botões. Supostamente.

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