Precisamos conversar

Na América Latina, colonizada por europeus, a disputa pela espiritualidade sempre veio acompanhada da disputa pelos corpos. Escravização e imposição de hábitos considerados civilizados. Em geral, a espiritualidade cristã foi implantada junto a trabalhos forçados e costumes estranhos aos povos originários.

Em uma cidadezinha no interior da Amazônia peruana, um conflito doméstico a cerca do choque de costumes estava prestes a acontecer. Juan, o marido, cultuava as divindades do panteão tradicional do local. Seguia a religião Tahuantinsuyu, onde Pachamama é a grande Mãe Terra, e Viracocha, o criador. Já Iara, a esposa, veio do Brasil com o protestantismo neopentecostal na bagagem. Até aí, tudo ia bem. O casal vivia em relativo equilíbrio.  

Um dia, chegou à pequena Tierra Blanca, um grupo de arqueólogos estadounidenses em uma missão de estudos, coisa muito comum em se tratando de um país como o Peru. Nesse grupo de pesquisadores havia a Sandy, uma loura escultural, com olhos azuis como safiras, e que chamava a atenção onde quer que fosse.

Em um pequeno passeio pela cidadezinha, Sandy torceu o tornozelo e foi prontamente atendida por Juan, que passava pelo local na mesma hora do acidente. A jovem americana ficou altamente sensibilizada pela atenção e pelo carinho do homem. Em poucos minutos estava completamente apaixonada por Juan e ele, já estava babando por ela desde o momento em que teve de levantar-lhe a calça e avistou aquele tornozelo alvo como a neve, macio como manteiga e cheiroso como uma rosa branca. Estava completamente entregue à paixão.

Ao chegar em casa, Juan não conseguia disfarçar a euforia. Sem delongas, chamou Iara.

– Querida esposa, precisamos conversar. Discursou sobre as suas tradições nas quais o homem pode casar com várias mulheres, falou, falou, argumentou até que Iara, compreendendo a paixão avassaladora que seu marido estava sentindo, o interrrompeu e aceitou a americana como segunda esposa.

Com o tempo, Iara passou a não achar tão ruim essa tal nova esposa. Ela era trabalhadora, simpática, quase engraçada, e de lambuja, dava conta do Juan em noites de descanso para Iara.

Passaram-se dois anos e a pesquisa de Sandy acabara. Com lágrimas nos olhos, ela se despediu de Juan com um beijo e deu um fraterno abraço em Iara que não segurou o pranto. Já havia se acostumado a ter outra mulher em casa.

Nesse mesmo ano, Iara fora resgatada de um pequeno incêndio em um comércio local. Saiu das chamas agarrada em um bombeiro alto, moreno, cem quilos de músculos, voz aveludada. Iara não resistiu aos encantos do exuberante bombeiro. Caminhou, cambaleante e sorridente, até sua casa, pegou Juan pela mão e disse:

– Querido marido, precisamos conversar.

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