Porto Alegre 2070

O mundo colapsou. Os carros elétricos não vingaram. Os plásticos poluem completamente os tecidos humanos. Várias cidades litorâneas foram invadidas pelo mar. Falaram que houve um grande explosão, ou uma erupção vulcânica no fundo do oceano. Porto Alegre se transformou em uma lagoa com dois metros de água escura e densa. A população que sobreviveu se obrigou a migrar para as áreas altas do estado, causando superpopulação e um aumento exponencial da criminalidade. Nesses lugares as leis tornaram-se obsoletas.  Impera a força de quem tem mais armas e jagunços. As indústrias de todo o planeta fecharam suas portas devido à escassez de matéria prima. O sol já não brilha mais. Os dias são eternamente cinza.

Em poucos meses, as armas de fogo perderam a utilidade devido a falta de munição. As pessoas vivem como antigamente, caçam, pescam e, quando há terra, plantam para a subsistência. Os fracos perecem. Fanáticos dão o pouco que têm para falsos profetas e suas promessas vazias, um terreno no céu, uma salvação. São legiões de cegos conduzidos por espertalhões que os levarão rumo ao abismo.

Acostumados a essa realidade apocalíptica, pai e filho remam em sua canoa em busca de algo ou alguém. Singram os rios silenciosamente, temerosos em ter contato com pessoas ou animais violentos. Há meses não avistam um ser humano, somente peixes e, raramente, algum pássaro. Navegam em direção a um mundo que não existe mais.

– Continue remando filho!

Verificam as redes. Alguns Cascudos. Traíras. Carás. Mussum. Por hoje é suficiente. Retornam rio acima, pra casa.

Na manha seguinte, o mesmo ritual. Pegar a canoa. – continue remando filho! Navegar em direção à cidade, conferir as armadilhas. Dessa vez uma Tarataruga. Cascudos. Traíras. O sol se pôs. O frio arrepia os pelinhos dos braços. Continue remando filho! Hora de voltar.

Um certo dia, tudo parecia diferente. O vento norte trazia calor para a manhã úmida. Fizeram como sempre. – Continue remando! Redes. Peixes. Água e mais água por todo lado. Uma ave. – Arco e flecha! Zzzzisssss. -Vamos antes que algum bixo a pegue. Seguiram a correnteza do Jacuí. Chegaram à cidade grande. Escutam algo como um choro, uma voz vinda de uma grande construção.

– É perigoso entrar aí, pai? – Silêncio total.

O pai estava em postura de caça, com o arco e flecha prontos para qualquer surpresa. Continuaram ouvindo a voz. Parecia uma criança chorando. A tensão já estava em níveis extremos. Qualquer ruído era um susto. De repente, a voz foi ficando mais forte, pai e filho conseguiram visualizar quem emitia o choro, era um gatinho muito pequeno que estava, não se sabe a quanto tempo na água, desorientado, tentando sobreviver.

Exausto, o filhote se deixou resgatar. Passado o susto, deram-lhe um peixe e um colo seco. Seguiu viagem com eles. Deste dia em diante será parte da família.

No caminho de volta, por instantes, pararam de remar para apreciar o céu cinzento e os tons de Azul Cobalto e Azul Petróleo do pôr do sol que os antigos chamavam de “O mais lindo do mundo”.

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