Meu pai viajou

Quando observamos as populações que são oprimidas por guerras ou problemas econômicos, sempre nos sentimos fortemente tocados com duras imagens de crianças esfarrapadas, pedindo esmolas ou comida, com lágrimas que secam nas suas faces antes mesmo de caírem ao chão.

Ver crianças palestinas chegando aos pedaços nos hospitais poeirentos da Faixa de Gaza ou de qualquer outro local de conflito armado, quando deveriam estar estudando e usufruindo de segurança, alimentação e cuidados, nos fere como um soco no estômago, assim como é impossível sentir algo bom ao se deparar com pequenos Caingangues rolando pelo chão da Rua da Praia enquanto seus pais tentam ganhar a vida vendendo artesanatos.

Crianças são símbolo de pureza e inocência, por outro lado, podem impressionar pela resiliência com que enfrentam problemas pessoais e sociais.

Para o historiador francês Philippe Ariès, a infância é um conceito que foi construído socialmente e que passou a ter um sentido distinto na História, mais evidentemente a partir da transição de sociedades medievais para as sociedades modernas. No medievo, as crianças eram entendidas como se fossem pequenos adultos e eram muito cedo alocadas em postos de trabalho que hoje competem exclusivamente a pessoas adultas. Na sociedade contemporânea, a infância é reconhecida como uma fase do ser humano que tem suas necessidades e manifestações específicas. Porém, sabemos que isso não ocorre com todas as crianças.

Na escola, havia um menino muito inteligente e gentil. Seu bom rendimento escolar contrastava com a péssima situação que tinha em casa. Falar em pobreza é pouco para descrever o contexto. Piolhos, feridas, fome, doenças. Agressões físicas e psicológicas. Um misto de negligência e maldade. Seguidamente notávamos vários hematomas nos braços de Edson.

O pai, único contato na ficha escolar do menino, fora chamado para conversar. Homem rude, machista. Exalava violência nos gestos, nas palavras e no olhar. Tentou se eximir de suas responsabilidades. Alegou difamação por parte da escola. Disse que o seu filho estava muito bem e que não lhe faltava nada em casa. Saiu da reunião bufando e arrastando Edson pelo braço.

 No dia seguinte, o menino chegou a escola com vários hematomas novos e com a cabeça raspada, deixando evidentes alguns cortes abertos e um punhado de cicatrizes no couro cabeludo.

O pai do menino fora chamado por muitos dias seguidos sem sucesso. Telefone, e-mail, mensagens, nada dava retorno, porém o menino continuou frequentando a escola e, aos poucos, todos percebemos uma enorme diferença no comportamento dele. Estava com mais energia, melhor humor, não dormia durante as aulas como era de costume. Não mais brigava com os colegas nem com a professora. Quando perguntamos para o menino como estava, ele respondeu:

– Estou ótimo! Meu pai viajou para muito longe e nunca mais vai me machucar. Estou a cada dia mais tranquilo, mais forte e o freezer está cheio de carnes pra eu comer.

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