Há três dias que algumas vacas se separaram do rebanho. Meu pai me mandou ir atrás delas e trazê-las sãs e salvas. Ele sofre com isso pois não teve nenhum filho homem, então eu tenho de ajudá-lo com as vacas e com os afazeres da família. Minha irmazinha Nala está sempre nas minhas costas e vai comigo buscar as vacas. Estamos na trilha já há dois dias e nada de avistarmos as vacas perdidas, só pegadas que nos levam para cada vez mais longe da tribo.
As horas passam pegajosas sob o sol intenso da savana. O ar é denso e empoeirado. Tenho pouca água. É melhor achar rápido essas fujonas. Comida já não tenho mais. A Nala não para de chorar com fome e sede. Se acharmos as vacas, teremos leite e talvez, um pouco de sangue.
Passamos por uma fonte de água na hora certa. Precisamos beber e nos refrescar rapidamente, pois na floresta a água é para todos e os seres humanos não são os as criaturas mais fortes por aqui. Bebemos tudo o que podíamos antes que um Leão ou um Leopardo aparecesse sedento. Os abutres fazem a sua dança da morte nos céus. Estão só esperando alguma de nós morrer, mas isso não vai acontecer.
Seguimos mais pegadas bovinas por algumas horas até que consigo visualizar as vacas de meu pai. Estão mais magras, mas são elas com certeza. Começo a manobra para agrupá-las. Tomamos o caminho de volta antes de a noite cair. A atenção tem de ser redobrada agora, pois são mais animais chamando a atenção de predadores. As vacas não param de mugir. Conduzo o grupo de maneira acelerada. Quanto mais terreno ganharmos, mais perto da tribo estaremos.
O sol se põe e os perigos da noite se pronunciam. Monto um pequeno acampamento com cercas de espinhos. Amarro as vacas perto de nós. Fico acordada para afugentar as feras que por ventura se aproximem do nosso grupo. Noite tensa. Alimento o fogo para me esquentar e poder ver mais longe. Os leões rugem distantes. Hienas e cães selvagens perambulam nervosamente ao redor do acampamento. Eu atiro pedras para espantar o que quer que se aproxime. Ao amanhecer, tudo fica calmo. A luz da alvorada desencoraja os predadores furtivos. Agradeço a Enkai pela segurança. Tiro um pouco de leite para mim e para Nala que dormiu profundamente sem nem imaginar os perigos que rondavam o nosso pequeno acampamento. Melhor assim.
Revigoradas, retomamos a trilha para casa. Em poucas horas, avisto nossa tribo que também nos avistou e já começa o Adamu para festejar a nossa volta. Em meio a saltos a cantos todos me abraçam. Meu pai, orgulhoso, separa uma das vacas para sangrar. A comida será boa e farta. Todos festejam com leite. Logo mais beberemos o sangue e comeremos a carne da vaquinha escolhida. Teremos uma noite inteira de danças e cânticos.
Meu pai beija-me a testa e, em seguida, com o sangue do animal morto, faz um sinal no mesmo local em que me beijou. Ele me veste com um manto vermelho, que para nós é símbolo de coragem. Pega minha mão e me leva até os guerreiros que, em festa, saltam o mais alto que podem. Uma recepção em tanto e uma grande honra para mim.

