Dez por cento

Diomar era um homem sem fé. Vivia de uma fabriqueta de ídolos, pequenos símbolos da fé alheia. Nossa senhora da Conceição, da Assunção, Aparecida, Virgem de Guadalupe entre outras, conviviam pacificamente com Yemanjá, Oxum e outras divindades de vários credos. Para Diomar, elas não tinham a menor diferença. Todas eram “santinhas”, sem que isso significasse algo de bom, sublime ou divinal.

Uma certa noite, enquanto dormia, Diomar teve uma sensação estranha. Sentiu como se estivesse sendo observado. Acordou e deu de cara com todas todas as santas que, sem nenhuma fé, as vendia grosseiramente esculpidas em gesso. O susto fez com que ele saltasse da cama, com os olhos esbugalhados, completamente encharcado de suor.

— O que as senhoras desejam? — Balbuciou com voz rouca, gaguejante. As santas senhoras estavam imóveis, com um leve sorriso sarcástico no semblante, só olhando para pobre homem.

Guadalupe, a mais passional, com mãos na cintura, tomou a frente.

— Então o senhor ganha vida vendendo a nossas imagens mas não tem nenhuma fé na gente? Isso é um absurdo!

Conceição, com paciência infinita, pediu calma a Guadalupe que saiu do quarto batendo portas.

Oxum, com toda a doçura de sua voz, falou que se ele continuasse desagradando às santas, não teria mais dinheiro nem amor.

Aparecida disse ao homem que deveria acreditar naquilo que lhe dá o sustento, pois senão a vida seria vazia, inóquoa, sem propósito.

Yemanjá, com todo afeto e carinho de mãe, falou:

 — Filho, deves ter fé naquilo com que trabalhas. É mais coerente.

Assunção, objetivamente, arrematou:

— Precisas dar um pouco do que ganhas para os pobres! Nós trabalhamos a vida inteira pelos desvalidos, então o senhor, que ganha dinheiro às nossas custas, deve deixar um pouquinho para os necessitados.

Completamente tonto e assustado, Diomar não conseguia falar nada, só concordava acenando com a cabeça até que, lá de trás, veio uma santa que ele nunca havia visto. Estava com um vestido vermelho, segurava uma garrafa de cachaça e fumava charuto, era Maria Padilha do Cabaré que lascou:

— Olha aqui, ô Diomar! — encheu a boca de cachaça e soprou tudo em cima do pobre homem.

— Papo reto contigo. A partir de amanhã tu vai separá dez por cento das tuas venda e vai ajudá os pobrezinho! Se não fizer isso, te tranco os negócio e tu vai morre miserável! Falei e tá falado e o que eu digo, tá riscado.— Escreveu uns sinais com giz no piso do quarto e queimou com pólvora assustando a todos.

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