Cidades de lona

Em meados dos anos 1970, as tensões decorrentes do modelo agrícola excludente, adotado no Rio Grande Do Sul, se tornaram mais intensas, fazendo com que ressurgissem as ocupações de terras ociosas.

Em setembro de 1979, centenas de agricultores sem terra ocuparam as granjas Macali e Brilhante no município de Ronda Alta. Em 1981, próximo dessas áreas, um novo acampamento surge: a Encruzilhada Natalino, que se tornou um símbolo da luta contra o regime militar que, de forma violenta e autoritária, acentuava a desigualdade social no país.

Eu tinha oito anos quando meus pais decidiram a ir morar em algumas terras que, segundo eles, não eram usadas para plantio nem para criação de gado. A Família da Olga, para sorte minha e dela, também foi para o mesmo lugar.

Os pais da Olga eram muito amigos dos meus pais e por isso estávamos sempre juntos nas barracas de beira de estrada, nos protestos, nas caminhadas e na sala de aula, que eu não sabia que era improvisada pois, nunca tinha conhecido uma escola que não fosse de lona. Aliás, todas as nossas casas eram de lona, que para mim nunca significou precariedade, pelo contrário, significava segurança de que a chuva não iria nos molhar e que o sol não seria um problema para a nossas peles claras.

Lembro de sentir fome em todos os dias da minha infância porém, sempre dividi o pouco que tinha com a Olga. Cada nóz encontrada no chão, cada pedaço de pão ou biscoito, tudo era partilhado com a minha pequena companheira de movimento, colega de sala de aula e moradora do meu jovem coração.

Em mil novecentos e oitenta e um, a direção do movimento decidiu nos trocar de lugar. Fomos para um novo acampamento. Símbolo de resistência, diziam os mais velhos. Para mim e para a Olga, era pura diversão. Morar em barracas, viver em comunidade, a escola sempre se mudando junto das famílias, a polícia sempre no portão. Tudo era uma grande aventura.

A vida foi passando. Muitos acampados se tornaram políticos. Uns seguiram trabalhando pelos menos favorecidos, por uma sociedade mais justa e igualitária. Já outros, entraram para a vala comum da política e acabaram participando de negociatas e politicagens, prejudicando a imagem de um movimento que segue na luta pelos trabalhadores do campo e que inspira revolucionárioas até hoje.

A família de Olga foi mandada para militar em outros acampamentos, lá no Pontal do Paranapanema, no oeste de São Paulo, e foi aí que nós perdemos contato.

Por volta dos vinte anos passei no vestibular e fui cursar Ciências Sociais na Universidade Federal. Morei na Casa do Estudante durante toda vida estudantil, sempre investigando os levantes populares mundiais que tanto inspiraram as lideranças do movimento onde nasci e cresci. Foi como um resgate de memórias. O frio inclemente do inverno, o calor absurdo do verão, a fome nos rostos de crianças e adultos. Compartilhar com os acampados, o desejo de mudança, de solidariedade, de justiça. Foi como reviver toda a complexa situação que vivi na infância, o que me fez lembrar de muitos companheiros daquela época, principalmente do meu amor pela pequena Olga.

Hoje, depois de muito tempo casado, estou separado e tenho três filhos: Vladimir, Natalya e Lyudmila.

Nos meus devaneios, sempre me pergunto o que deve ter acontecido com a querida Olga? Teria ficado solteira ou casado com algum companheiro de movimento ou com um fazendeiro? Só o que sei, é que nunca vou esquecer daquela menina branquinha com cabelos da cor dos raios do sol.

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