Eis que o homem teve uma ideia:
– Vamos transformar a água em terra?
Então, para dar vazão à sua genialidade, o homem usurpou do próprio rio a terra que secaria suas bordas. Dragou seu fundo até a exaustão e, não satisfeito, buscou nos seus restos urbanos o que faltava para dar cabo ao seu projeto. A princípio, seria apenas para uma usina de energia. Afinal, construí-la à margem não seria suficiente, era necessário ir um pouco adiante. Energizada, a cidade entendeu que não bastava conviver com o seu rio. Precisava invadi-lo e dominá-lo para prosperar. Mais terra e lixo urbano para a base de ruas, portos, arranha céus e centros comerciais. Fez-se o progresso.
A água – subjugada – retomou seu espaço, destruiu benfeitorias e voltou ao leito que lhe confinaram. Foi como se dissesse:
– Vocês não me põem cabresto!
O homem – esperto – construiu um muro.
– Resolvido – sentenciou orgulhoso.
De certa forma, ele não estava errado. O muro protegeria o concreto que ora repousava no antigo espaço do rio. Porém, os pais do muro não previram o desinteresse de seus sucessores na manutenção da estrutura. Os raios não caem duas vezes no mesmo lugar.
A estrategista água esperou o tempo necessário para presunção humana crescer e sua memória diminuir. Após muitos outonos, o céu da cidade viu a formação de um grande exército de moléculas de H2O. Batalhão concentrado, despencou nas montanhas e desceu arrastando vidas e sonhos até encontrar o muro que até tentou, mas não conteve a inundação. No planalto, usou a força para destruir em horas. Na planície, usou a persistência para destruir em dias.
A usina, outrora imponente sobre o chão artificial, jazia seu esqueleto inundado à mercê de barqueiros e suas tarefas de socorro. Tudo era água. Tudo era história. Tudo era aprendizado. Tudo seria esquecido por todos. Todos, menos Tibicuera.
Tibicuera, filho contemporâneo da linhagem vitalícia dos Tibicueras e responsável, segundo Erico, pela guarda da história do Brasil, navegava dentro da Usina. Não estava só, vinha acompanhado do filho, também chamado Tibicuera – a fórmula da imortalidade da família estava em repetir o nome por gerações. Aproveitaram a primeira manhã seca, após dias de aguaceiro, para lançar sua canoa no inflado Lago Guaíba. Antes de chegarem à Usina, foram ao Delta do Jacuí para observar e registrar a vazão dos rios Jacuí, Caí, Sinos e Gravataí. Lembraram da profecia do Pajé, o mesmo que deu o nome à família: toda vez que o homem branco abusar dos rios, a água irá retomar seu espaço à força.
E assim, cumpriu-se a secular missão do índio tupinambá Tibicuera. No epílogo deste capítulo da história, fizeram a seguinte anotação: “A água dá e a água tira. Sua vontade é soberana”.

