Temporal

O tempo fechou.

Talvez Zeus não tenha gostado das cobranças de Hera. Afinal, o que é uma traiçãozinha aqui e outra acolá? Bom, questões do Olimpo à parte, tempestades são frequentes sob o território gaúcho. O Rio Grande do Sul está entre os dez estados que mais sofrem descargas elétricas no país, com cerca de 40 incidências por quilômetro quadrado. Considerando esses dados, fica impossível repetir a máxima popular: o raio não cai duas vezes no mesmo lugar. É a “maldita” ciência destruindo mitos.

Final de tarde de um dia quente e úmido. É certo: vem temporal. Seis da tarde, o horizonte escurece – não pela ausência do sol –, anunciando raios, trovões, chuva e vento. E, como de praxe, vejo minha mãe correndo pela casa:

– Fecha as janelas, vem temporal – ordena, enquanto ela mesma o faz.

– Mãe, de onde vem tanto medo? – pergunto logo que ela termina a tarefa de fechar as aberturas da casa.

– Não tenho certeza – responde. – Acho que tudo começou quando eu tinha uns 16 anos.

Era primavera, prossegue, buscando detalhes nos porões da memória. Diz que lá por cinco da madrugada de um sábado. Foi um barulho terrível. Diziam que tinha sido um furacão, com pedra e ventos fortíssimos. Pessoas morreram e casas ficaram repartidas ao meio. Meu pai tinha medo e, sempre que se armava um temporal, ele reunia os filhos na cozinha. Se o vento ficasse muito forte, todos iam para baixo da mesa, para se proteger de um possível destelhamento. O que nunca aconteceu, nossa casa era uma fortaleza.

E conclui:

– Uns dois anos depois, me casei e fui morar numa casa de madeira, cheia de frestas. Tínhamos medo – eu e teu pai – de que a casa viesse abaixo com qualquer ventinho. Corríamos para a casa do vô Olindo e da vó Ivone.

– Com o tempo e a convivência, também passei a ter medo – interpela meu pai, que escutava quieto.

            Terminada a narrativa sobre a origem do medo, olhamos para a rua e as nuvens escuras tinham se dissipado. Como na maioria das vezes, o “lobo mau” passou sem soprar. Olhou com cara feia e foi embora como quem diz: “Esta casa é muito forte, não consigo.”

            Pensativo, levo a vivência para casa. Se o medo de temporal é geracional, interrompi a sequência. Embora respeite a força destrutiva dos ventos e tome precauções, os cuidados ficam na medida da força esperada para o evento climático.

            A casa de meus pais – onde me criei – tem uma vista maravilhosa para o morro São João. Da janela da casa, adorava ver o uivo do vento forte atuando sobre as árvores. O avanço das nuvens escuras, e os raios e trovões que dividem o céu entre o que vem vindo e o que está provocam em mim sensações de prazer e regozijo. E o mais legal: nunca precisei aplaudir ou gritar “bravo” para que o espetáculo se repetisse.

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