Eis que, um dia, ele encheu o saco e resolveu que não seria nada mais que um simpático – ou nem tão simpático – senhor a passear despretensiosamente por periferias, vielas, ruas ou avenidas. Economia às favas, queria gastar muitos rolos de Kodak Tri-X 400 que carregava em sua bolsa a tiracolo. Aliás, se um trombadinha resolvesse lhe roubar, lucraria apenas com algumas notas de cinquenta reais e filmes – virgens e revelados.
Decidido a dar protagonismo ao que sua câmera apontava, saiu porta afora e caminhou, tal qual Forrest Gump, até encontrar um conjunto de arranha céus, onde parou numa curva que aparentava ser a porta de entrada para um pequeno mundo de contrastes. Abordou um transeunte, colocou uma de suas Leicas em suas mãos – deixou a outra em seu pescoço – e instruiu sobre o que fazer. Andou alguns metros, girou sobre o tronco e, de soslaio, mirou o ajudante improvisado que, entendeu que aquela era a hora do click. Estava pronta a foto de capa, o registro do todo a ser esmiuçado.
Com a percepção aguçada e treinada por inúmeras incursões pelas misérias e diferenças sociais, a segunda foto mirou um homem, sentado num banco de praça, de coturnos e calças de tecido grosso, quase uma lona. Trabalhador de alguma companhia elétrica – pensou Sebastião – que, no seu momento de descanso usava o celular para pagar o boleto que o deixaria negativo com o banco.
Adiante, entrou na praça que ornava a avenida e apontou a câmera para a família de retirantes ali acampada. Uma das crianças, com a cara encardida pela poeira urbana, correu até o fotógrafo para lhe pedir um dinheirinho.
– Tenho fome, tio! – exclamou a pequenina.
Foi esse rostinho de súplica que Sebastião congelou em seu filme e em sua alma.
Calejado, emociona-se sem se abalar. Sai da praça em direção ao cordão que separa a calçada da avenida. Olha para um lado e para outro e foca na paisagem que vaza de uma das ruas entre os prédios. Lá está a favela, formada por aqueles que foram empurrados para a margem da sociedade. Máquina grudada no rosto e olho atento na luneta para mais um registro do cotidiano urbano.
Atravessou até o canteiro central da via e voltou seu olhar para onde estava. Dali, observou a metade do todo – o todo da primeira foto. O feeling do experiente fotógrafo interpretou a cena: ônibus com pessoas voltando do almoço, carros precários dirigidos por trabalhadores autônomos, secretárias de consultórios, advogados tensos, pedintes e, por fim, a família de retirantes da praça. Tudo encaixado em uma arquitetura antiga, formada por muradas e luminárias em postes esculpidos por antigos artesãos. Numa meia-volta, na outra metade do todo, o oposto: edifícios de escritórios e moradias refinadas, carros importados, gravatas e saltos. Na interpretação de alguém desavisado, um cenário de diversidade. Na experiência de Sebastião, um cenário de contraste social.
Então, resolveu ir para casa. O dia programado para queimar muitos filmes, acabou após cinco fotos. Ficar de saco cheio era um direito que o dever não permitia. Precisava continuar gritando através de suas imagens. Precisava transformar o mundo. Ou, ao menos, tentar.

