Santa grana

Durante minha formação cristã, deparei-me muitas vezes com o episódio bíblico que fala sobre os vendilhões do Templo ou purificação do Templo. Conta a Bíblia que, durante a Pessach, Jesus entrou no Templo de Jerusalém e encontrou comerciantes de animais e cambistas de moeda. Irado, expulsou compradores e vendedores, derrubou mesas e cadeiras e disse-lhes: “Está escrito: A minha casa é casa de oração; mas vós a fizestes covil de salteadores.” – conforme relato em Lucas 19:45-46 e Mateus 21:13.Pe

Muitas rugas, cabelos brancos e calos nas mãos após a catequização unilateral dos primeiros anos de vida, trago esta passagem do livro sagrado para o século XXI. E a pergunta que se impõe é: hoje, onde estão os mercadores da fé?

Embora a resposta pareça evidente a muitos, o canto da sereia de alguns líderes religiosos e políticos embaraça o discernimento de grande parte dos cristãos. E, por vezes, apontam a estes incautos cidadãos falsos conceitos sobre religião e amor ao próximo. Parece que a célebre frase “Amai-vos uns aos outros” ganhou um adendo: “amai-vos uns aos outros, desde que seja da nossa panelinha!”. Pelo jeito, tais “líderes” aproveitam a certeza de que Jesus não virá a seus templos para cegar seus fiéis. Não encontro outra explicação. Os discursos pregam claramente o desamor ao próximo e a monetização da crença.

Mesmo que a maioria dos cultos atuais não siga os preceitos de Lutero, é no movimento reformista dele que nasce a maior parte das alternativas cristãs contemporâneas. Não é necessário ser fã de Lutero – e não sou exatamente um fã – para concordar com muitas de suas noventa e cinco teses, principalmente a que diz: “Não é possível comprar o perdão de Deus com dinheiro”. E, neste ponto, reside uma de minhas maiores incompreensões sobre o comportamento humano. Tenho certeza de que todos concordam com esta tese. Então, como explicar o sucesso destes mercadores nos dias de hoje?

O comércio da fé – talvez a segunda profissão mais antiga do mundo – sustenta-se na pregação do medo. Esse sentimento abre espaço para que profetas desprovidos dele dominem e faturem. Faturem prestígio dinheiro e poder. Enquanto os messias humanos – e caras de pau – amealham fundos para seu conforto e riqueza, como fica seu rebanho? O rebanho, cooptado emocionalmente, busca nos templos o alimento possível: a esperança.

Neste contexto, encontramos outro tipo de comerciante da fé. São aqueles que considero ingênuos. Os encontramos em feiras, quermesses, portas de igrejas e procissões. Vendem terços, crucifixos, estatuetas de santos e outros souvenires sacros. Embora usem a lábia de um vendedor, não perseguem fortuna e poder. Querem arroz e feijão para o prato de seus filhos. Com as mãos enrugadas precocemente – não tiveram acesso a cremes e protetores solares –, oferecem seus artefatos. No final do dia, contabilizam o parco lucro, separam o dízimo e vivem com o que sobrou.

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