Roupa limpa

Então, a água retorna ao leito. Foram contáveis dias de invasão com incontáveis perdas. Ela não bateu à porta nem disse: “- Com licença, posso entrar?”. Persuadiu as vítimas com a falsa lentidão da tartaruga de Esopo. Invadiu e habitou. Vital para a nossa sobrevivência, mostrou sua bipolaridade com devastação, revelando-se a pior das inquilinas. Inquilina para qual juiz algum ousou expedir mandato para reintegração de posse. Chegou e foi porque quis.

No abrigo improvisado, Janaina desperta cercada por vizinhos sem paredes. Após noites insones – com certezas e incertezas separadas por osmose – havia dormido. Não foi um sono com sonhos de princesa. O sussurro dos versos de Poema – Cazuza & Frejat –, vindo de algum rádio vizinho, interpretava a insistente pressão no peito: Eu hoje tive um pesadelo / E levantei atento, a tempo / Eu acordei com medo / E procurei no escuro / Alguém com seu carinho / E lembrei de um tempo…

A notícia – feliz – de que a água desistira de sua casa não é suficiente para impedir que este sentimento tome posse.

Logo após o café preparado por voluntários, foi levada ao que restou de sua casa. Pela janela da potente caminhonete da Defesa Civil, observa a gradual mudança de cenário entre o abrigo e a beira do rio, onde residia. Por ironia, o veículo estaciona em frente à sua casa no mesmo momento em que a banda Rosa Tattoada canta o verso: Sentiu as pernas como blocos de pedra e o coração esmagando seu peito.

Rosto maquiado por ranhuras precoces, lábios ressecados e olhar resignado que enxerga o caos em sua casa. Abre o portão de ferro, sustentado pela brava grade que se negou a cair, e vê o sofá – que outrora decorava sua sala – no pátio, ajeitado junto à parede, à espera de limpeza. Entra em casa forçando a porta emperrada. Vai ao quarto das três filhas que, ainda no abrigo, esperam notícias de seus brinquedos e vestidos.

Na porta do dormitório, seca a lágrima que ousa tentar escorrer e engole o choro. O chão escorregadio lembra um molho de carne, e a cama de casal das meninas, quebrada ao meio pela queda do roupeiro, jaz no centro do cômodo. Em meio ao piso lamacento, as roupas arremessadas do móvel tombado estão imundas. Não se dando por vencida, Janaína – que procurava boas notícias para levar para às filhas – encontra a foto do Natal passado, em que elas vestiam seus vestidos preferidos. De forma obsessiva, procura e encontra as roupas encardidas, homogeneizadas com o piso. Não são somente objetos, são memórias que evaporam.

Ela cata os três vestidos e vai ao pátio onde encontra o tanque de lavar nocauteado pela força do rio. Determinada a limpar as roupinhas, vê uma caixa d´água presa ao muro. Aproveita a água barrenta ali empoçada para lavar, esfregar e enxaguar. Torceu e estendeu-as – uma a uma –, a sua frente, segurando-as pelos ombros, até entender que estavam limpas, ao menos mais limpas do que estavam.

Procurou o varal e encontrou apenas um prendedor de roupa preso a um fragmento de barbante. Com os vestidinhos molhados, dependurados no ombro, e o prendedor preso entre os dentes, entrou novamente na casa e juntou três cabides. Ajeita cada vestido em um cabide e pendura-os na cerca. O prendedor, acaba preso como se fosse peça essencial a segurar um facho de arame.

A distância, o fotógrafo que observa a romaria daquela mãe, não tem forças para oferecer consolo. Sua devassidão silenciosa lhe permite apenas um click. Um click que reverbera como uma sentença: num lugar impossível, aquela mãe há de tornar possível um lar.

Para Janaína, agora a roupa está limpa.

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