Raras são as vezes em que desperto com o sonho lutando para não ser esquecido. Naquele dia, o sonho – que persistiu ao acordar – estava vestido de recordação. Recordação pouco agradável, daquelas que remói o espírito, que fica grudada em algum lugar e que, volta e meia, causa desconforto. A formação cristã luterana me ensinou – ou algum filtro inconsciente me fez interpretar desta forma – sobre amor, paz, perdão e desapego material. Acordar e lembrar de uma cerimônia a que fui – já adulto – em busca de uma prédica de paz e encontrar a lista ameaçadora do que me mandaria para o inferno deixou-me desiludido. Diria mais: fez-me questionar a fé imposta pelo medo. Foi quando o filtro furou.
Não foi uma epifania, foi apenas a gota final, aquela que transborda o copo. A lembrança rememorou e corroborou minha desistência da igreja como um refúgio de paz. O crescente incômodo causado pela hipocrisia dos “irmãos em Cristo” – santos ao perpassar a soleira da igreja – validada pelo pastor, fizeram-me ateu, talvez agnóstico. Enfim, o rótulo pouco importa.
Derrubado o mito dos homens de batina serem guias incólumes, passei a procurar minha crença. Acreditar que tudo acaba a sete palmos da terra nunca foi opção. Contudo, é complicado procurar no raciocínio lógico, opções viáveis para a vida após a morte. Até que, numa entrevista para uma rádio de Porto Alegre, ouvi o seguinte diálogo entre o jornalista e o filósofo Mário Sérgio Cortella:
– Deus existe? – perguntou o repórter.
– Deus é algo improvável. Então, prefiro crer que ele existe – respondeu o filósofo.
Resposta simples, de consequências complexas. Ao menos para mim. Parei de me autocobrar a necessidade de dobrar os joelhos a qualquer divindade imposta por algum humano. Isentei-me de culpa por achar ilógicos e inócuos os rituais para agradar a Deus. Não tirei da bagagem o amor, o perdão e o desapego material. Cultivei o hábito de respeitar a diversidade e entender que as pessoas não são diferentes, são apenas diferentes de mim. Tampouco estou preocupado em estar em algum time binário, que cobra crença ou não crença. Resolvi esperar até quando for a hora e, provavelmente, não retornarei para contar.
Entendida a diretriz íntima, segui para a batalha diária de conviver com pregadores – eles sempre estiveram por perto – que me trazem uma sensação de invasão. Veja bem, é preciso discernir invasão de debate e troca de conhecimento. Valorizo as experiências das pessoas que me circundam, bem como suas ideias e escolhas. A invasão é mais sutil, feita de pequenas frases em modo imperativo ou com interjeições de respeito, tipo: “Respeito o que você pensa, mas fique você lá e eu aqui”. Geralmente, são os mesmos que juram fidelidade diante das tábuas de Moisés e, na primeira oportunidade, acrescentam um conveniente “mas” – Não matarás, mas, se tentarem levar teu ouro, tudo bem.
Enfim, se não podemos provar a existência dele, escolhi acreditar. A fé – mais divina e menos humana – traz paz e me fortifica a prosseguir.

