Janelas da alma

Por onde caminho, janelas se abrem e inundam com luzes, cheiros, arrepios, sabores e sussurros a alma esquecida. Nos sentidos, o sentimento urge. Ele grita por memórias de outrora e por aquelas que estão por vir. Revitaliza minha periferia e evidencia a simplicidade do amor, por vezes complexado. É quando relevo a importância das janelas? Quando teimo, paro de caminhar. Quando paro de caminhar, deixo que se fechem. Nem percebo.

Pousei no mundo por força do amor. No início, talvez envergonhado, talvez com medo ou, ignorante, precisei ser conduzido. De frente para as pernas dos gigantes que me trouxeram, fui encorajado a olhar. Mostraram-me a estrada que ora iniciava. Apontaram rumos, corrigiram passos e abriram o cardápio das percepções.

Nos primeiros passos, me lambuzei de sentidos e sentimentos. Tonteei, sentei-me e choraminguei. Olhos úmidos e semicerrados. Braços apoiados nas coxas, dedos se tocando e boca arqueada para o chão. Nariz e ouvidos cheios de ranho. Semblante derrotado pelo excesso de opções e dúvidas. Ou, somente dúvidas. Se continuar, o que vou encontrar?

Instigado, prossegui. Ainda sentado, ergui o tronco e o queixo. Sequei lágrimas e busquei foco. A boca, agora num fio horizontal, preparou-se para degustar e saborear. A meleca nasal deu lugar a aromas florais e a audição foi aguçada pelo latido do cachorrinho aos meus pés. A vida estava posta, estava servida e parecia ser um banquete. Um banquete tipo “boca livre”?

Experimentei e aprendi. Aprendi: nem tudo que é oferecido respeita o prazo de validade. Foi quando a dor de barriga me derrubou e mostrou que não há tutores. Precisei observar para fazer escolhas válidas e ser protagonista de mim mesmo. Mas, quais escolhas me tornam protagonista?

O piso, por vezes sólido, outras movediço e, na maior parte, fluido não apresenta placas indicativas. Boas almas fincam avisos à beira. Contudo, são avisos personalizados, bons a uns e inúteis a outros. Então, por um instante, paro. Em pé, um braço por cima da barriga apoiando o outro e o dedo no canto da boca. Para quem me olha, expressão corporal pensativa. Para mim, puro pensamento eletivo. Ficar parado não é mais opção. Vou para cá ou vou para lá?

Não é sobre o medo de abrir as janelas. É sobre deixar abertas as que alimentam minha alma.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima