O ano era 2005 – acho. Eu, um curioso e assíduo consumidor de tecnologia, me vi em um debate com amigos sobre fotografia digital. A faísca do papo se deu quando conheceram minha nova aquisição: uma máquina fotográfica Nikon Coolpix com cinco megapixels de resolução. Um colosso na captura de imagens. A discórdia logo se instalou:
– As pessoas não deixarão de preferir a foto impressa – sentenciou um amigo.
– Não é sobre o que preferimos. É sobre como as crianças irão lidar com isso – retruquei.
Pulando para 2025, cá estou frente a uma tela, inundada de fotos digitais. Embora falem tanto quanto as impressas, concordo com o argumento sobre a falta do tato. Já as crianças de 2005 não estão nem aí. Se é verdade que bits, bytes, zeros e uns democratizaram o hábito de fotografar e filmar, também é verdade que banalizaram os motivos para um click. O excesso estimula o descarte antes do olhar. Mesmo assim, algumas imagens precisam de apenas alguns milésimos de segundo para serem compreendidas. E assim foi.
Um lugarejo carente de infraestrutura, com casebres, lixo e chão batido. Ao centro, mãe e filha unidas por uma flauta – cada uma segurando uma das pontas. E, completando a cena, três cachorros de rua. Todos de costas para o fotógrafo no momento do retrato. Fixei a foto em tela cheia e ousei fazer uma “leitura labial” do que via.
– Não corre, filha.
– Os cachorros vão me pegar – responde a menina.
– Só querem brincar – explica a mãe.
– Não puxa, vai quebrar tua flauta! – repreende a mãe, logo após a filha tentar pegar o instrumento de sua mão.
– Isto não é brinquedo e custou caro – continua a mãe. Se quebrar, não temos como comprar outra. Tu vai ser uma artista de sucesso, irá brilhar nos palcos, como sempre sonhei. Meu pai não tinha dinheiro e dizia que música era profissão de vagabundo.
– Acho que não gosto de música. Só de ouvir – responde a filha. – Mãe, só quero brincar… Dá pra mim, vou fazer de conta que sou uma flautista mágica… vou encantar os cachorros!
– Não, filha, nada de brincar. Vamos para casa; você precisa estudar as partituras que o professor deu. Sonhar não enche barriga.
Obediente, fez o que lhe mandaram. Os brinquedos ficam para depois. Talvez nunca. Afinal, em alguma geração da família, alguém haverá de sair da miséria.
Independentemente do formato, a fotografia cumpre a função de comunicar. E é capaz de furar bolhas em outros cercadinhos, normalmente alienados. Infelizmente, alienados não entendem nem em pixels nem em filmes.

