Eu e Salomão

Um dia antes de você nascer.

Querido filho,

Mesmo sabendo que a natureza não obedece a calendários e relógios, sei que chegarás amanhã. O doutor disse que seria mais seguro marcar dia e hora para te tirar de dentro de mim. Sei lá, achei este doutor ansioso demais. Todos aqueles exames que me mandaram fazer disseram que você estava pronto para vir do jeito de Deus, não do jeito do doutor. Anteontem, li uma revista – do ano passado – no postinho, enquanto esperava a última consulta antes de você nascer. A manchete dizia que o Brasil tinha uma das maiores taxas de cesáreas do mundo. A notícia dizia que os médicos ganham mais nesse tipo de nascimento. Fiquei interessada, mas achei um saco ler aquele textão.

Sabe, filho, o dinheiro que motiva o médico – e move o mundo – é o mesmo que me falta. E esta falta desafia meu amor. Li no Instagram: quem ama, não prende! Não entendi muito bem o que esta frase quer dizer, mas ela grudou em mim. É justo te condenar a miséria para te ter ao meu lado? Perdoe-me, não soube ganhar dinheiro.

Teu pai é um bom homem. Não o culpe por não aguentar a notícia da tua chegada. Ele não fugiu, apenas foi embora por entender que não conseguiria nos sustentar. Namoramos dois anos e cuidávamos para que tu não viesses. Até que, um dia… Ele trabalhava como motoboy e tinha renda incerta. Como dizia, era empreendedor, dono do próprio negócio e não respondia a nenhum patrão. Eu estudei até o nono ano. Larguei o estudo porque meu pai precisava de ajuda para sustentar a casa. Perdoe-me, deveria ter insistido nos estudos.

Te amo desde que soube de ti. É estranho pensar que cuidei para não te conceber e agora te desejo e zelo por tua vida. Quando é puro, o amor dói e exige renúncias. A cada centímetro que a barriga cresce, crescem as expectativas: menino, menina, cabelos castanhos, olhos azuis, sorriso, inteligência, alto como o pai, bondoso como a vó. Enfim, como será a vida deste ser que cresce dentro de mim?  Então, percebo que teu caminho comigo será difícil e, provavelmente, igual ao meu. Perdoe-me, não encontrei remédio para esta dor.

Ela era dona do maior supermercado da cidade e tinha o hábito de, toda sexta-feira, pedir um x-tudão na lanchonete onde teu pai fazia entregas. Ele – sempre bom de papo – contou sobre nós. Teu pai nunca soube que a dona do supermercado me procurou e me encontrou. Contou que sonhava ser mãe, mas Deus não lhe deu a dádiva de conceber e a adoção era a única saída para realização de seu sonho. Perdoe-me, sou menos capaz que ela.

Na catequese, ouvi a história de um rei – acho que era Salomão. Fiquei horrorizada com a história das duas mulheres que reclamavam serem mães da mesma criança. Para Salomão – o rei – eram levadas todas as brigas que precisavam de juiz. Ele mandou cortar a criança ao meio, mas entregou-a – inteira – para aquela mãe que renunciou ao filho em prol de sua vida. Perdoe-me, não encontrei um rei que te entregasse a mim.

“Dê-lhe amor e estudo para que ele não tenha que desistir de um filho.” Com esta condição, te entregarei a ela. Abandonei-me como mãe. Perdoe-me, foi por amor.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima