O que sobra

Minha mãe diz que a gente vive recebendo coisas. 

Diz ela que a casa foi construída com restos de outras casas reformadas. Diz que o meu pai também conseguiu restos de tapumes para montar a nossa casa. Isso ela diz. Eu não me lembro do meu pai. Minha mãe diz que ele foi embora antes de eu começar a falar. Diz que, pelo menos, foi embora mas deixou a casa para ela. Para nós. 

Minha mãe trabalha num galpão de reciclagem. Aproveita coisas de lá. Às vezes encontra roupas e sapatos. Com o dinheiro da reciclagem a minha mãe compra comida pra nós.

A mãe diz que também tem gente que ajuda. Ela fala que a gente ganha roupa e comida de gente de religião. Católicos, evangélicos e espíritas. Não lembro de outros. 

A gente vive com nossos cachorros. 

Eu queria ter um irmãozinho ou uma irmãzinha que nem as outras crianças do bairro. Minha mãe me diz que sem o pai, não vai ter irmãozinho ou irmãzinha. 

Às vezes a gente vai para outros lugares. Com ruas mais largas, casas mais arrumadas. Digo pra mãe que queria morar em uma casa arrumada daquelas. Ela me diz que não dá. 

Às vezes minha mãe fica triste. Chora sozinha. Diz que vive mais por baixo que cu de cachorro. Eu choro junto. 

Às vezes ela ri e brinca comigo. Brincamos. Eu, ela e os cachorros. 

Eu rio. 

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