O carro parou. Com toda essa eletrônica embarcada hoje em dia já não dá para tentar olhar o motor e avaliar o que aconteceu. Que quebrada essa daqui! Deixar se guiar por aplicativo dá nisso. Parar numa quebrada sinistra. Entre o abandono e o abandono. Sabe lá quem são essas poucas caras que me encaram. Pelo menos ainda é dia e tem bastante tempo até o pôr do Sol. E agora? Chamar o guincho. Esperar. Caminhar até uma sombra. Esperar. O que é aquilo pendurado? Lençóis? Não. Vestidos. Vestidos. Ao vento podiam ser talvez lençóis. Chegando mais perto vejo que são três vestidos. Três. Me evocam fantasmas. Minha mãe, minha irmã, minha mulher. Todas tomadas. Todas levadas pela doença que até bem pouco quase não podia ser mencionada. Sinistro. Cada uma com o seu. Mama, pâncreas, intestino. Eu sobrei. Por que penso nisso agora? Não sei. Quer dizer, os vestidos pendurados me evocaram. Também talvez porque a morte da mulher seja recente. Ainda doa muito. Mas não sei porque falo nisso. A mamãe e a mana gostavam de usar vestido. Minha mulher, não. Mamãe se foi há anos. A mana antes da peste. Minha mulher durante a peste, embora não da peste. É, o vento faz os vestidos flutuarem. De mais longe me pareciam mesmo lençóis. Fantasmas. Fantasmas não existem. Ou existem. Eu vivo falando nesses meus. Fiquei só. Os filhos vivendo longe. Eu aposentado mas fazendo bico com o carro. Esperar. Aguardar. Aguardar o meu tempo também passar. Mas vou tentar ficar esperto. Não quero me tornar fantasma antes do tempo.

