No final dos anos 1970 a terra escasseava no Rio Grande do Sul. Ainda não escasseava no Brasil, mas aí a questão era outra.
As terras recebidas pelos colonos no final do século XIX, pequenas propriedades, já não davam conta da descendência de alemães, italianos e outros que haviam recebido lotes com prejuízo para os povos originários.
Era necessário dar terra a quem a quisesse para trabalhar. O Brasil precisava encarar novamente algo que foi um dos motivos do golpe de estado de 1964, a reforma agrária. Um acampamento em Encruzilhada Natalino, RS, se tornou representativo disso.
Eram tempos de mudança. O então governo Figueiredo era o último suspiro do regime militar, que se afundava em inflação e recessão.
Lá em casa, no início dos anos 1980, eu comecei a trabalhar, e meu pai estava se aposentando. Ele tinha o passado nas costas, eu o futuro pela frente.
Também naquele início dos 80 ainda acreditávamos na “profecia” do pensador austríaco Stefan Zweig que declarava o Brasil era o “país do futuro”. Aqui vale um parêntese, Brasil, país do futuro foi o título de um livro que Zweig escreveu. Esse livro deixou marcas em parte da elite pensante do país, e o título meio que virou uma profecia, ou um desejo, que foi passando de geração em geração. A frase é citada na letra da canção 1965 (Duas tribos), da Legião Urbana. Há que se dizer que apesar da obra, Zweig não se sentiu motivado o suficiente, pois teria se suicidado na cidade de Petrópolis em 1942. Aqui vale um parêntese dentro do parêntese: há uma teoria que ele teria sido assassinado. Fecha parêntese. Fecha parêntese. Seguimos.
Figueiredo se foi pela porta dos fundos do Palácio do Planalto. Tancredo Neves, o presidente eleito de maneira indireta, morreu antes de assumir. Sarney se tornou o presidente da transição do regime militar para um civil, em um país que cada vez mais assumia ares de liberdade.
Por essa época meu pai desfrutava da maneira possível os poucos anos que teria de aposentadoria. Eu ia amadurecendo na vida laboral.
Pessoas que estiveram em Encruzilhada Natalino conseguiram lotes. Algumas no próprio Rio Grande do Sul, outras foram para rincões tão longínquos quanto Mato Grosso ou Rondônia.
E o tempo passou. O país ganhou nova Constituição. Voltou a eleger diretamente presidente, governadores e prefeitos de capitais. Melhorou, mesmo que muita gente não perceba. A expectativa de vida passou de cerca de 58 para 76 anos. A mortalidade infantil caiu de 67 por 1000 nascimentos, para 13 por 1000. Analfabetismo caiu de cerca de 20% da população para 5%.
Mais de 40 anos se passaram. Eu me aposentei. Papai morreu.
Não creio que ainda sejamos o país do futuro. O que tínhamos de ser, somos. E, claro, também digo isso porque já não tenho tanto futuro assim (tenho mais passado que futuro).
O novo futuro pertence às crianças de agora, neste país do presente.
Como será que estarão os netos daqueles e daquelas que foram crianças em Encruzilhada Natalino hoje?

