Neide

Querida,

Escrevo-te sem o peso das convicções, mas com a leveza de quem gostou de te ver rir naquela noite em que o tempo estava gostoso. Desde então, tenho andado com tuas palavras guardadas na mente.

Gosto da distância entre o que somos e o que poderíamos ser. Há um encanto em não nomear nada, em deixar o acaso juntar nossos instantes. Talvez seja isso o que mais admiro: tua presença sem promessas, tua espontaneidade em deixar o tempo nos formar.

Escrevo-te sem saber se é cedo ou tarde demais. Talvez seja apenas o tempo exato em que o silêncio começa a ocupar espaço demais.

Ontem lembrei do teu riso. Há sons que se recusam a ir embora e o teu riso é um desses. Fiquei imaginando se tu também reparas nas pequenas coisas, como o modo como o sol entrou pela janela da sala naquela madrugada e pousou no teu corpo pela manhã, iluminando tua pele clara.

Não sei se esta carta é uma recordação ou apenas a coragem de escrever-te o que ainda não te disse, mas se te chega sem pressa, é porque o coração não tem vocação para urgências.

Com afeto entre o riso e o silêncio,

Eu.

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