No início parecia uma brincadeira, chegou de leve, sem pretensão alguma, apenas estampada com miúdos pingos de chuva.
Olhei detidamente por alguns segundos e percebi que havia algo mais, porém, como de costume, deixei rolar.
Não tenho o hábito de desvendar rapidamente, gosto daquele espaço, da troca em conta-gotas, do poder de imaginar e de subverter a ordem das reflexões.
Curto observar e ser observado.
É sério, a frequência de olhares e sorrisos penetra e contagia.
Nada passa desapercebido, mesmo sob o manto da timidez tudo se revela intenso, frenético, volumoso em demasia, assim mesmo, sem explicações e controles.
Roda o vinil com a batida do Led, pesada, rítmica, encantadora.
Do lado de fora a luz amarela, macia, suave, corta o vidro da janela e contrasta com a carência do ambiente.
É hora do café preto, sem açúcar, com pão francês quentinho recém saído do forno da padaria, assim, simples, sem frescura, com um pouco de manteiga, sem sal.
Enquanto as horas passam ela continua com seus miúdos pingos. À noite, percebo que esgotou, preencheu as ruas, inundou os tanques, transbordou, e revelou alguns dos efeitos do despejar em conta-gotas.
Entendi a identidade.

