Os Sem Terrinha

Ele era jornalista, mas também fazia belas fotos. Diagramava jornais e panfletos para os movimentos sociais, montando as letras “set” nos títulos. O texto datilografado era colado abaixo.  Fotos também. A impressão chamava-se “offset”. Aprendi, com ele, a fazer essa diagramação quando era voluntária na ONG onde ele trabalhava. Eram os anos 80.

Nos finais de semana, fazíamos mutirão para recortar, juntar e depois xerocar as principais notícias da semana que saiam nos jornais da cidade e em alguns nacionais importantes, fazendo pequenos cadernos com informações que interessavam aos trabalhadores e suas organizações. E enviávamos a eles. Que trabalho artesanal!

Com ele aprendi também a cortar as fotografias, já impressas, que ilustrariam os jornais, de maneira a deixar apenas o que o olhar pudesse colher de essencial, a imagem mais significativa. Ainda faço isso nas fotos que tiro com o celular. Claro que agora é tudo mais fácil com a edição digital.

Quando acompanhou o movimento de trabalhadores  rurais, no início dos anos 80, fez belas fotos de crianças nos acampamentos dos sem terra. Crianças de olhares curiosos e pés descalços, na rudez de barracas de lona preta. Fotos em preto e branco, captadas na “Encruzilhada Natalino”, local que marcou o início desse grande movimento que culminou com a criação do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – em 1984.

Essas fotos, de cinco por sete centímetros, estavam jogadas numa gaveta na nossa casa.

Resolvi colá-las num painel de madeira de mais ou menos setenta por cinquenta centímetros. Coloquei como título “O Futuro na Encruzilhada” e dei a ele no dia de seu aniversário. Estamos separados há muito tempo, mas ainda está na sua sala. Sinal de que gostou.

Quando olho esse painel, fico pensando onde estarão essas crianças, mais de quarenta anos depois. Seus pais conquistaram as terras com que tanto sonharam e lutaram. Foram para diversos assentamentos no RS. E essas crianças, será que continuaram trabalhando na terra como seus pais? Migraram para as cidades? Conseguiram estudar? Essa é uma dúvida que tenho e, às vezes, me vem à mente a ideia de procurá-las. Comentei com um amigo fotógrafo e roteirista de cinema. Acho que já tenho parceria para essa ousadia!

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