Testemunho

Vez ou outra, abro o livro que conta um pouco da história de um dos bairros de Porto Alegre, Revelando a Tristeza, escrito por Roberto Pellin. Os avós paternos, vindos da Itália no início do século XX, demarcaram com cercas, nesse bairro, o território que seria o berço brasileiro da família. Junto a essa escrita, guardo algumas fotos antigas que o tempo, aliado a cuidados humanos, generosamente, ajudou a manter, contando a história da Família Tonidandel. Nem sempre o tempo se mostra gentil conosco.

O mês de abril e maio na minha cidade natal, em minhas lembranças, apresentava-se com temperaturas amenas, deixando no retrovisor o calor e a umidade do verão que quase sufocava nossa população urbana. Muitas foram as comemorações do Dia das Mães, segundo domingo de maio, realizadas com o som, quase instrumental, produzido por gotas de chuva nos telhados. Dentro da casa, conversas, risos, aromas e música, davam a cor e o tom que essas gotas acompanhavam, tal qual uma sinfonia. Em 2024, não foi assim.

Águas cobriram ruas quase por inteiro, tornando-se braços algozes e desconhecidos do rio que recebe o mais lindo por do sol desse país, alegria de várias gerações. Casas foram cobertas pelas chuvas e pela lama tendo seus móveis, brinquedos, retratos de família transformados em escombros flutuantes.

Tudo que nessas águas lamacentas flutuou e foi arrastado pelas correntezas era biografia de alguém que perdeu o chão. Enchente que, para vidas incontáveis, emitiu e carimbou certidões com a palavra – desaparecido, pois reza a lei dos homens: quando não há corpo, não há óbito.

A história dessa catástrofe ambiental não é contada pelas paredes cinzentas, carcomidas e com limo estampado em suas entranhas. São as pessoas – homens, mulheres, crianças, velhos – carregando sacos improvisados com algum pertence salvo, cães molhados. Olhos turvos e pesados, trazendo a dor, o espanto e, ao mesmo tempo, uma força silenciosa.

A tragédia que desenhou uma Porto Alegre irreconhecível por quem, até então, a conhecia, é uma aliança entre o mau tempo e a revelação das nossas escolhas coletivas. Do descuido com o ambiente, da ausência de políticas, da indiferença aos alertas que transforma a tragédia em rotina.

Além das cenas de inundação fotografadas, também ficaram registradas aquelas de resistência: o estender de mãos dos voluntários; o olhar solidário dos que dividiram um barco improvisado; a distribuição de sopas que alimentaram corpo e alma de quem tudo, ou quase tudo, perdeu; o abraço que tentou aquecer apesar da umidade instalada.

As águas baixaram, outros Dias das Mães com ambientes calorosos e festivos ocorrerão. A compaixão gerada pela Porto Alegre inundada de 2024 foi anunciada pelo mundo afora e o choro de seus moradores também reverberou, nacional e internacionalmente. Fotos de família que, ao longo do tempo, tinham sido cuidadosamente guardadas, se perderam. Entretanto, a história de sobrevivência e morte das pessoas que viveram essa enchente continuará a ser narrada por imagens, muitas delas apresentando lama. Essas imagens precisam ser cuidadosamente emolduradas e penduradas em paredes que contam a História de Porto Alegre, associadas à seguinte inscrição: fotografia é um testemunho, memória presa na luz, um instante para não ser esquecido, fragmento de realidade que não permite higienização.

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