Ruas de resistência

A esperança chega de mãos dadas com o futuro. Já pensei dessa forma. Entretanto existem territórios em que isso não ocorre, onde a terra não é o chão – é memória de tudo o que dali foi arrancado. Lugares onde a vida segue adiante como uma teimosia que só os que nada têm conseguem carregar. E o futuro é algo nebuloso, atormentado pelas nuvens que correm em dias cinzentos.

Nesses locais é senso comum nos depararmos com a ausência de respostas à dignidade que todo ser humano tem direito. Casebres insalubres com toldos que qualquer brisa anuncia – “estou deixando exposta aos céus, sua luta por dignidade”. Nada é estável. Nada é seguro. Ruas estreitas, feitas de poeira e sobrevivência, recebem passos que não sonham mais, apenas resistem ao que o mundo lhes rouba. Dia após dia.

Os barracos feitos de madeiras retorcidas, no desalinhamento de portas e janelas, no rangido das dobradiças enferrujadas, parecem fantasmas. Almas penadas a observarem as urgências dos que por eles passam a olhar para um horizonte sem promessas que, tal qual uma bússola desnorteada, não desiste de indicar o vazio como destino. Um precipício que clama por almas em que a vontade de voar seja mais forte que a vontade de resistir. Mas, surdos ao tal chamado, os pés cansados teimam em sustentar e fazer caminhar corpos também fatigados,

E os cães não podem deixar de estar junto à essa paisagem de desolamento. Animais esquálidos, costelas quase transparentes, a andarem, em passos cautelosos ou, deitados ao longo dos estreitos espaços de travessia em que passam dores do mundo. De vez em quando, latem. Não em sinal de alerta a algum perigo, e sim em sinal de protesto. Protestam pelo abandono e pela fome angustiante a que são submetidos junto aos que por ali habitam, seus companheiros de um caminho escrito. Rabos balançam ao receberem eventuais gestos de afeto de transeuntes.

Por essas mesmas ruas estreitas e empoeiradas, mulheres levam crianças de mãos dadas e estas, na inocência que somente encontra abrigo na infância, teimam em brincar, saltar, pular, desconhecendo a tragédia que as abraça, sem licença ou direito qualquer. Talvez esta seja sua maior benção. No encontro das mãos, há uma linha que se traça entre o hoje e o amanhã. Uma tênue e singela mensagem de que, mesmo em meio a ruínas, a vida segue e a esperança precisa estar acompanhada de resistência.

Há territórios em que, mesmo entre entulhos, trapos e impossibilidades, um simples entrelaçamento de mãos, se torna um manifesto silencioso de que a humanidade ainda vive. Nas ruas de resistência, a esperança chega de mãos dadas com pés descalços de crianças.

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