Ao amanhecer, em meio a imensidão da savana e ao pó avermelhado carregado pelo vento, roupas coloridas surgem vestindo corpos do povo Maasai. Eles caminham lentamente, reverenciando a terra tocada por seus pés por saberem que ela lhes dá tudo o que precisam: comida, água, abrigo e memória. À frente deles, anda o rebanho, moedas cintilantes de quatro patas que definem a fortuna da família. Enquanto o mundo ao redor acelera, o pacto de silêncio entre eles e a natureza se mantem – não é necessário estardalhaço para a vida ser grandiosa.
Nas aldeias, os braços das mulheres se movimentam para despertarem o dia – carregam água, fazem o fogo, enlaçam as crianças. Elas caminham com a tranquilidade de quem sabe que sustenta a vida há séculos. Silenciosamente. Seus corpos pequenos possuem uma força invisível e um compromisso com o futuro, com a continuidade. Os colares multicores que adornam seus pescoços brilham, mostrando que, mesmo em espaços áridos, a beleza não desiste de nascer.
No riso e brincadeiras das crianças, o mundo de incertezas e dificuldades não se faz presente. Correm descalças, lépidas, como se, lá no horizonte, seus nomes estivessem a serem chamados. Aprendem cedo a conversar com o vento, a lerem as condições de pastoreio, a decifrarem os enigmas do céu. Sentam-se em bancos construídos com o que a natureza oferece e, na oralidade de suas avós, recebem a história de seus ancestrais e da cultura de seu povo.
As meninas maasais auxiliam suas mães nas lidas domésticas e conduzem os rebanhos, utilizando paus que, por vezes, são maiores que elas. Costuram as brincadeiras com a responsabilidade de guiarem os animais ao transformarem seus paus em lanças imaginárias e correrem atrás da poeira levantada por seus pés. Com pequenos seres carregadas às costas, preso por uma tanga de batik — um simples tecido de algodão, mas impregnado de significado cultural, lançam olhares no vazio inventando mundos onde a dureza do cotidiano não as alcança. Por instantes.
Quando olho para os Maasais através das lentes, vejo mais que rostos marcados pelo sol: vejo persistência de um povo que resiste ao apagamento, que dança pulando com a mesma força que enfrenta tempestades. Vejo mulheres que entoam canções de ninar com a mesma delicadeza que erguem as imensas jarras de água coletada e as conduzem por quilômetros apoiadas em suas cabeças. Vejo crianças que herdaram, desde cedo, a liberdade guiada pelo pastoreio e pelo vento. Vejo anciões em que os sulcos dos rostos representam sabedoria e histórias que nenhum livro ousou registrar.
Fotografar os Maasais, é como colocar o foco num mistério: o da permanência. O mistério de um povo que ali, na savana do Quênia e da Tanzânia, honra todos os dias, a difícil beleza de permanecer sendo o que é.

