Onde seus olhos encontram Deus?
Nasci no seio de uma família e comunidade plural em termos religiosos. Minha mãe era umbandista, meu pai ateu, minha avó paterna católica fervorosa, meu avô materno dizia ser sua religião a Maçonaria, meus vizinhos eram filiados a Igreja Mórmon, meus melhores amigos dividiam-se entre os que não aceitavam e os que consideravam Jesus o Messias. E eu? Bem, de uma maneira eclética, visitei a todas e outras não aqui citadas – exceto, é claro, a maçonaria pois, em época, era restrita ao sexo masculino.
Juro por essa terra que recebe meus pés: nessa peregrinação tentei encontrar Deus, como me ensinavam. À medida em que cortinas do mundo iam sendo abertas diante de meus olhos, minhas dúvidas em relação à sua existência frente a tanta tristeza, fome e guerras, cresciam de forma exponencial. Até que, um dia qualquer, ao perguntarem qual minha religião, respondi: não tenho. Há muito deixei de buscar um Deus que mora no céu e que é reverenciado por atos de proclamação de fé em espaços restritos.
Mas, sim, é impossível não acreditar em algo maior quando vejo pessoas resistindo, ajudando umas às outras, reconstruindo suas vidas. Creio no que pulsa debaixo da terra e a fé está, para mim, no cheiro da chuva e no silêncio que reina nas montanhas; no olhar de quem recomeça depois da perda e, ainda assim, encontra forças para sorrir; na simplicidade do gesto de quem partilha o pouco que tem; nas crianças brincando entre ruínas, inventando mundos, com a leveza de quem ignora o desespero dos adultos.
Minha opção por fotografar a vida nas florestas, savanas e matas me apresentou uma catedral até então desconhecida: a natureza. Esta é a verdadeira catedral do mundo, onde sinto algo próximo do divino. Diante dela, me torno pequena. A fotografia faz eu me ajoelhar diante da vida, sem dogmas, sem liturgia, sem altares. O disparo da câmera, entre luz e sombra, é minha prece muda, um pedido para que o instante que se revela, belo ou não, não morra. Fotografar é um ato de fé – não no sentido religioso, mas no sentido de acreditar na vida, na dignidade, na possibilidade de beleza mesmo dentro da dor.
Talvez eu nunca tenha acreditado no Deus que tentaram me ensinar. Os deuses que moram acima das nuvens sempre me pareceram distantes demais. Mas aprendi, com o tempo – e com o barro nos pés, que há uma espécie de fé que nasce da própria terra. Hoje, acredito mais na floresta do que nos altares, mais no gesto do que na Palavra, mais no planeta do que nas promessas do céu. A natureza é a catedral que me resta, as árvores suas colunas, os rios – o sangue que corre em meu corpo – e me basta. Nela encontro a origem, a verdade, o silêncio e a morada da fé que sobrevive a todos os deuses.
Quem sabe estar em frente ao divino seja apenas isso: o espanto diante daquilo que ainda resiste; da pureza dos que cuidam; da coragem dos que amam; da persistência da vida a florescer. Mesmo sobre o pó.

