Infância à espera

Não sei você, mas há um bom tempo, meus olhos teimam em manterem-se abertos, mesmo com as pálpebras cerradas. Enquanto a mente não encontra abrigo, não é possível calar os pensamentos, certo? O que me mantem alerta? Infâncias.

Fui uma criança que teve o crescer dos pés fincados na terra, embora a cabeça estivesse a plainar pelas figuras desenhadas por nuvens gordas nos céus. Não havia fartura de moedas nos bolsos de minha família, mas o teto simples, a mesa com pão e uvas e os cuidados com a saúde e educação dos pequenos, eram metais reluzentes. Sem ter, em época, consciência do significado disso, essas condições possibilitaram alçar meus voos futuros. Em minha jornada aprendi o quão fundamental é cuidar da infância e da adolescência.

Em algumas viagens, os trabalhos voluntários que realizei foram com crianças em vulnerabilidade social: em escolas públicas e orfanatos. Diariamente o maior desafio era manter a serenidade frente aos cenários entristecidos desenhados pela mão do ser humano. Em momentos ímpares, encontrei olhos que sorriam, pernas que corriam, mãos que teimavam em pintar folhas de papel já rasuradas. Mas o tempo todo vislumbrei bocas e ouvidos à espera de carinho, afeto. Sedentos de esperança. Tentei atender a isto, com abraços, beijos e contando histórias com finais felizes.

Na rotina caseira, ao acompanhar as tragédias humanas internacionais que interessam às mídias divulgarem, de forma incessante, tenho o hábito de buscar informações que pairam sobre temas similares, em espectro nacional. Com isso, chego a dados de 2023, publicado em sites oficiais sobre a infância e adolescência brasileira: entre 0 e 14 anos de idade, o país tem quase 11 milhões de crianças e adolescentes vivendo em extrema pobreza. E, no final de 2024, chegamos a mais de 1 milhão de indigentes, sem definição de idades, morando em vias públicas brasileiras.

Me deparei, em meio às publicações, com fotos de crianças sem lar, sem teto, sem praticamente nada. Observando seus olhares, me reportei a outros que fotografei enquanto voluntária. Aos daqueles outros pequeninos seres com os quais aprendi a chorar sorrindo, sem lágrimas derrubar. Reluto em adormecer pensando que, a infância de todas essas crianças repousa, não no brincar, mas na espera. Rostos que aprendem, desde cedo, a escutar o silêncio do mundo que os cerca, a ler no vento as promessas que passam e se perdem no horizonte. Corpos que gravitam à espera de algo que talvez nunca chegue. Cansados de pedidos não atendidos, com olhos fixos no vazio de suas existências. Infâncias silenciadas. Infâncias à espera do que, hoje tenho consciência, a mim foi concedido, enquanto criança e adolescente.

Dignidade.

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