Viver junto a indígenas foi projeto realizado em 2017. A experiência tornou-se possível ao ter sido recebida, por 6 dias, numa reserva indígena Cachivera, no seio de uma tribo Kubeo, em Mitú, capital do departamento de Vaupés, situada sobre o rio Vaupés — Região Amazônica da Colômbia. Desses dias, mantenho lembranças e fotografias, com pouca publicação da minha vivência e das imagens que fiz.

Vidas fundidas à floresta em uma relação espiritual de respeito à natureza. As crianças brincando com o que o ambiente lhes oferecia e adultos mantendo suas famílias com alimentos cultivados por eles, seus pescados e da venda do artesanato que produziam com materiais retirados da mata. Casas erguidas com barro, madeira. Taquaras, cobertas por folhas de bananeira ou de zinco, abrigavam desafios, preces e sonhos. Os jovens, diariamente, atravessavam o rio em busca de educação, de conhecimento.

Às vezes, parece que a sorte bate à porta, como aconteceu com Nílbio Torres, protagonista do filme O Abraço da Serpente, indicado ao Oscar/2016. Nosso encontro ocorreu nas águas do Vaupés, quando ele e a esposa, remavam em direção ao posto de saúde para fazer exames de pré-natal. Atracamos as canoas, lado a lado, e, após as fotos e gravação de vídeo no qual contou, sua experiência cinematográfica, a expectativa frustrada de que o destino e os brancos o ajudariam a ir além da floresta, acenou-me em sinal de adeus, deixando como recordação: as imagens, o vídeo e a clareza do seu engano.

Nenhuma novidade nessa história narrada pelo, precoce ex-ator, Nílbio. Em livros de história encontra-se as reais intenções dos colonizadores europeus em relação aos povos primitivos. Utilizando-se das famosas Companhias Jesuíticas, indígenas foram enganados, escravizados, mortos, mão de obra barata. Em uma política indigenista, os padres, conhecidos como encomenderos, separavam os índios entre, os bravos que precisavam ser subjugados militarmente e politicamente – eles –, e os aliados que se submetiam à fé cristã – nós –, justificando o projeto colonial endossado pela ardilosa natureza ética-religiosa. Reuniram várias tribos submissas em espaços que se denominavam Reduções – também conhecidas por Missões Jesuítas, campos de trabalhos forçados onde os índios trocavam o que produziam pela encomenda de suas almas para Deus.

Aos indígenas bravos? Parece que o destino foram as chamas vermelhas do fogo do inferno, a morte. Seja nas batalhas travadas com os colonizadores e as tribos submissas, ou pelas doenças trazidas pelos brancos e, até então, inexistentes na América.

Ao longo do rio Vaupés, visitei famílias indígenas de diferentes etnias, gravando pequenos trechos de falas em suas línguas nativas e depois traduzidos para o espanhol, hoje o idioma adotado por todas as tribos. E, sim, continuam a se reunir sob o teto católico, onde, originalmente, seus antepassados foram catequisados e batizados – após o batismo, de acordo com o Papa Pio III, desde 1537, os índios passavam a ter alma. Entretanto percebi que nem tudo foi perdido pelos nativos, pois no cenário pintado nas paredes internas da Igreja de Mitú, Jesus não é o elemento principal, mas sim um convidado que dá luz a tradições indígenas. Estas são representadas pela fauna, flora da floresta e por índios vestidos em suas roupas originais, ou seja, cobertos unicamente por tangas e trazendo cocares de penas coloridas nas cabeças. Mesmo com todas as mudanças impostas pelo colonialismo e a mescla de crenças originárias com o catolicismo, a fé na luta dos índios por reconhecimento de sua cultura e tradições se mantem.

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