Lamaçal

Estávamos em Santa Cruz do Sul no batizado do filho de um grande amigo nosso. Era o último final de semana do mês de abril de 2024. Estava muito calor. O clima era típico de um “veranico” de outono, com céu azul, ensolarado, churrasco no quintal, amigos e família confraternizando. Porém, num piscar de olhos, tudo mudou. Veio uma rajada de vento tão forte que assustou todos nós. Foi um ciclone! Várias casas da região tiveram seus telhados arrancados. A tempestade chegara.

A chuva não parava, tornando-se cada vez mais intensa.  O rio Guaíba começou a subir de uma forma tão intensa que nada conseguiu impedir a invasão de suas águas no centro histórico de Porto Alegre. A Zona Sul, o Quarto Distrito, o bairro Menino Deus, Sarandi e muitos outros foram tomados pela água. Com o grande volume de chuva, os diques não suportaram a pressão e se romperam, piorando mais ainda a situação calamitosa de Porto Alegre.

Resultado:  uma baita calamidade pública, falta de luz, falta de água, esgotos saindo por tudo que é parte, bueiros entupidos e jorrando água para cima, invadindo bairros, casas e comércio. Pessoas fugindo de suas casas, desesperadas, nadando ou mergulhando nos corredores de suas residências ou ruas. Pedidos de socorro através de celulares que ainda funcionavam. Resgates de homens, mulheres, velhos, crianças e bichos de estimação eram feitos a todo instante por pessoas do Brasil inteiro de livre e espontânea vontade.

Abrigos em clubes e ginásios foram instalados às pressas para atender um número gigantesco de desabrigados, os quais foram socorridos na sua maioria por voluntários civis. A sociedade civil teve uma capacidade enorme de se organizar para salvar vidas. O poder público, como sempre, burocrático, lerdo e incompetente. Jet skis, barcos, comida, abrigos, roupas e doações financeiras, foram feitas em sua grande parte, por particulares em solidariedade, compaixão e amor ao próximo.

O caos fora instalado em toda a terra gaúcha. A maioria dos municípios sofreu os danos causados pela chuvarada. A capital ficou sem aeroporto por quase meio ano, a entrada e saída por via rodoviária era difícil, complicada e arriscada. Ficou tudo marrom! Nem preto, nem branco. Ficou barro, barraco, barrento. Palácios, palacetes, casas, casinhas e casebres.  Pobres dos pobres miseráveis. São os que mais sofrem sempre. O pouco que tinham a água suja levou. Móveis, eletrodomésticos, alimentos, roupas. Vidas!

Sim. Alguns morreram de verdade, outros mataram a pouca esperança que possuíam. Uma grande tristeza. Crianças nuas de sonhos, crianças nuas de pais, crianças sujas de lama. Crianças. Sempre elas. As maiores vítimas de um mundo que muitas vezes as esquecem na periferia da vida, sem família, sem casa, sem comida, sem estudo, sem infância, sem dignidade. Roupas sujas penduradas são o que resta. Até quando?

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