Do abraço do ventre, do banho líquido, amniótico, depois a segurança de ponta cabeça, a mão forte, de borracha, a toalha felpuda que limpa sangue, limpa placenta, para o primeiro beijo, na testa. Vem o choro, o colo, ela, quentinha, protetora, o teste, a picada, os sapatinhos de lã, as meias de algodão, azul, amarelo, cabe, não cabe mais, arrasta-arrasta pelo chão, tropeça nos primeiros passos, cai nos primeiros erros, bate em quinas que deixam calos, marcas e risos que vão demorar a sumir. Então os anos de escola, os tênis apertados, os chutes na bola, os dias de chuva, a lama, o sol, o calor que queima nas calçadas quentes, a adolescência em botas de couro, de sapatos de festa, nas nuvens de All Star rabiscado, a paixão e o futebol, de chuteira, o skate na rua, a fuga de casa, uma, duas vezes, a briga com os pais, o medo da noite que pesa, a volta, o abraço, o castigo. Depois o trabalho, o salto alto, o bico fino, invólucros sem conforto, duros, caros, limpos, sociais, para a festa da empresa, para os dias de escritório, para os metros ásperos de carpete, para os tapetes vermelhos não estendidos, o capacho, as ruas e avenidas percorridas, os planos difíceis de vender, de engolir, sem ideia, sem noção, por quilômetros, por estradas, elevadores, filas e filas de espera, pendurado pela rotina, de cabeça para baixo, sem luvas de pelica, inseguro. E teima, anda, ainda corre, busca e encontra outro, um ele, uma ela, num encontrão, num dia de calçada molhada, meia volta, reencontro, dele, dela, deles se espera muito, quase tudo, que dancem nas boates do Travolta, que bailem feito Ginger e Fred, que pisem nos próprios pés, que segurem-se pelas mãos, de frente, abraçados no altar, depois do pedido aceito, de pé na lua cheia, de lua de mel, do tempo conquistado, da viagem feita, do amor que virou, pé que treme ante o pé, pequeno, de ponta cabeça, o líquido, a lágrima, dele, dela, da menina, da bebê. Depois o cansaço, aos pés do corredor, do hospital, da espera pelo diagnóstico, da notícia, da volta para casa em silêncio, do vai passar, da menina que passou de ano, do alívio nos aniversários e nas festas, na dança com elas, a jovem que vai, o amor que fica, a despedida, de pé na porta da casa, a saudade já dolorida, reumática, que dura do dia até o fim da noite, antes do descanso na varanda, na cama, e no sonho do que passou. Dor no pé, todo velho, unhas feias e grossas, passos mais lentos, o caminhar arrastado, os calos mais fundos, pé de chinelo com meia antiderrapante, diante da escada, da rua inclinada, da bengala, do andador, da cadeira de balanço, ou de rodas, gigantes, que giram. Do réquiem que abraça, com choro e com vela, não mais de pé, no caixão carregado, no adeus dos últimos passos, no caminho a ultima poeira no sapato, que aponta para cima, confortável em meias de algodão azul e amarelo, até o último beijo. Na testa.

