Em 1969, enquanto o mundo ardia entre protestos, guitarras e bombas no Vietnã, uma juventude rebelde — e sensata — tentava encontrar abrigo em seus ideais e na música. Surgiu, então, uma canção de melodia suave que trouxe certo alívio ao caos. He ain’t heavy, he’s my brother parecia um sussurro em meio à balbúrdia, mas trazia uma mensagem forte e necessária: a da compaixão.
Escrita por Bobby Scott e Bob Russell — este já com câncer avançado, compondo seus últimos versos —, a música foi imortalizada na voz dos britânicos do The Hollies e, mais tarde, por Neil Diamond e outros intérpretes. A história por trás do título, dizem, nasceu de um episódio real. No início do século XX, em um orfanato americano, um menino foi visto carregando outro nos ombros. Perguntado se não achava difícil, respondeu: “Ele não é um peso, é meu irmão.” A simplicidade profunda do gesto transformou-se em símbolo, que virou lema de uma organização, que virou título de música. E, mesmo que hoje soe ingênua ou piegas — ou até mesmo “bíblica” —, a mensagem continua potente: o verdadeiro peso não está no corpo que se carrega, mas na ausência de solidariedade de quem se recusa a fazê-lo. Isso pode ser lido, ouvido e sentido em vários momentos da canção.
Logo no primeiro verso, “The road is long, with many a winding turn” — A estrada é longa, com muitas curvas sinuosas —, há uma verdade que ainda se mantém: seguimos tropeçando nos mesmos desvios de egoísmo e intolerância. O mundo, que em certo momento pareceu caminhar para o diálogo, se fecha a cada dia em novas trincheiras ideológicas. Guerras reacendem — da Ucrânia ao Oriente Médio —, enquanto povos inteiros ainda lutam pela sobrevivência, especialmente na África e na Palestina.
“But I’m strong, strong enough to carry him” — Mas eu sou forte, forte o bastante para carregá-lo. Existe, nessa frase, uma esperança persistente — e uma dúvida: seremos fortes o bastante para carregar uns aos outros, mesmo quando tudo nos convida ao isolamento? Nos campos de refugiados, nas favelas e nas fronteiras do descaso, há milhões de pessoas que esperam esse gesto, e clamam aos seus irmãos: não somos um peso. Alguém as ouve? “His welfare is my concern” — O bem-estar dele é minha preocupação. Num tempo em que o individualismo é muitas vezes exaltado como virtude, essa frase altruísta soa quase revolucionária. E quando a letra confessa “If I’m laden at all, I’m laden with sadness” — Se estou carregado de alguma coisa, estou carregado de tristeza —, percebemos que o fardo real é outro: o peso da tristeza, oriunda da impotência e da desolação diante da barbárie.
A música foi — e ainda é — um hino à solidariedade, à empatia. Talvez nós, humanidade, munidos hoje da potência dos nossos modernos (e caros) fones de ouvido, devêssemos ouvi-la mais vezes — e melhor. Afinal, sugere o último verso: “It’s a long, long road from which there is no return” — É uma longa, longa estrada da qual não há retorno. Resta-nos escolher o melhor caminho e seguir, de preferência, com a leveza de uma boa companhia. O mundo que ainda arde, este sim, é pesado. Mas o fardo sempre se dissolve — ou, ao menos, se minimiza — na partilha. Why not share?

