Inocência, Rotina e Esperança

As casas velhas, milagrosamente de pé, disputavam espaço com as árvores e o mato alto, num cenário descolorido onde o tempo não avançava — apenas se repetia, enferrujado e lento. A mulher, parte deste todo, todo dia, caminhava empurrando os minutos à força, a filha a tiracolo. O futuro, para ela, era um horizonte estreito, quase um fio sem proteção, como aqueles dos postes de madeira. A menina, espevitada, seguia ao lado saltitando para além dos veios d’água sujos que brotavam da rua mal-ajambrada. Aprendi mais palavras hoje! Logo vou ler histórias pra você, mãe!

Logo atrás, três cadelas as acompanhavam, por pura estimação. Uma farejava o caminho, outra seguia trotando sempre no mesmo passo, e a última abanava o rabo sabe-se lá por quê. Apesar de propor segurança, assustavam-se à toa: um grito abafado, um carro estranho que buzinava ao longe, um olhar atravessado. Mas a menina, que já sabia cuidar, as acalmava com um afago, e seguia dizendo coisas aleatórias tiradas da imaginação. Acho bonito quando o vento balança os plásticos, mãe, parecem bandeirolas. Olha!

O lixo acumulado nas laterais da rua não fedia tanto quanto as injustiças que escorriam por ali. A terra batida era um caminho incerto, sempre prestes a ceder. A mão pequena, e a outra calejada, unidas, avançavam por entre restos de coisas que ninguém quis. A mulher ia devagar, os pés acostumados ao chão áspero, a alma cansada de tropeçar nos medos que sempre a espreitavam. Ao seu lado, a menina saltava em pequenos impulsos, driblando a pobreza com brincadeiras rápidas, feitas para durar pouco. Pequena mas ligeira, às vezes ia à frente, chutando pedrinhas, imaginando que podia voar, alcançar um pedaço de mundo onde as pessoas não franzissem a testa ao vê-las.  Sonhei com o vestido azul que vi na televisão do bar, mãe!

A mulher, alheia às palavras, via o lixo espalhado, os telhados tortos, os cães soltos, a fumaça que subia de algum lugar invisível. A cada dia, a cada hora, buscava brechas onde pudesse inventar um mundo outro, só para elas. Já aprendera, porém, que não havia pressa capaz de romper o ciclo: a pobreza, o preconceito, a solidão das esquinas, a violência que ronda e se esconde. Sonhar lhe parecia um luxo; desejar, quase um atrevimento. Por sorte, a menina sonhava pelas duas, sem saber.  Mãe, vai devagar, espera um pouco, espera as três!

E elas vinham, ou viriam: Inocência, num passo desengonçado, seguia revirando tudo, tentando achar nas migalhas alguma beleza, ou sustento. Rotina trotava ao lado, imperturbável, com a paciência de quem vive um caminho que muitas vezes se repete — mas que pode mudar. E Esperança, a mais magrela, farejava o horizonte sem tirar as duas de vista, como se soubesse que algo melhor as aguardava. Além do fio desencapado, da água suja, dos olhares atravessados. Logo mais adiante, na curva onde elas moram, na casa de madeira que, sim, balança quando venta. Mas não cai.

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