Fade in.
Som de água corrente. Lenta, constante.
Uma cidade surge, quase submersa. Silêncio.
O enquadramento se abre: avenidas transformadas em rios, placas de trânsito flutuam sem direção, carros boiam como grandes peixes metálicos, mortos. No espelho d’água, estranhamente limpo, reflexos de prédios e nuvens se misturam. Um vento sopra. Um pássaro solitário sobrevoa e grasna.
Corta. Uma pequena canoa desliza entre arranha-céus afogados. A bordo, de pé, dois homens — indígenas de alguma tribo esquecida. O mais velho rema com calma; cada movimento desenha círculos perfeitos na superfície turva. O mais novo observa, curioso, como quem atravessa uma nova planície — ou um sonho.
A câmera acompanha em travelling. Passam por vitrines de vidro rachado: dentro delas, manequins submersos sorriem com seus rostos imóveis. Mais acima, janelas quebradas. Cardumes, acostumados a corredores de coral, passeiam entre os andares; desviam-se de lustres, sofás, computadores, copos plásticos, folhas de papel abandonadas pela pressa de fugir. No céu, persiste um azul pálido, doente. Ambos olham para cima. A câmera segue a visão. Estática, demora-se no firmamento.
Voz do velho (off):
“Construíram para o alto. Mas esqueceram que a água também sobe.”
A canoa segue. Navega ao lado de um outdoor meio submerso: na imagem, uma modelo bonita e sorridente oferece seguros contra desastres naturais. Uma pilha de jornais flutua, bate na canoa. A manchete: “O aquecimento global é uma das maiores fraudes de todos os tempos.”
Corte para plano aberto. A cidade é um cemitério líquido. Torres, debruçadas sobre a própria ruína, lembram velas afundadas. O vento sopra, levantando ondas que batem nos muros, ecoando como tambores distantes. Uma revoada de pássaros desfila em primeiro plano. Adiante, a canoa se aproxima de uma árvore solitária, o topo ainda acima d’água. O velho toca os galhos e murmura uma prece ininteligível. A câmera se aproxima de seu rosto — o olhar é sereno, mas triste.
Voz do jovem (off):
“Eles voltarão?”
O velho responde, baixo:
“Talvez. Mas terão de aprender. O rio… ele não castiga. Apenas volta ao seu caminho.”
Plano final.
A canoa se afasta, diminuindo entre os prédios. O sol nasce — um círculo alaranjado sobre um mar artificial, quase apocalíptico. O reflexo treme.
Som de remos batendo na água. Mais tímido.
Depois, o silêncio.
Fade out.

