Trovões ressoam no meu peito como tambores de um carnaval que anuncia o fim dos tempos. Raios dançam no céu, abrindo frestas na escuridão. Entre as sombras disformes, um clarão súbito, um espasmo de luz, revela a silhueta do homem — um deus pálido, ínfimo, que ousa desafiar a tempestade. Nascido entre fios e relâmpagos, eu, o personagem de sua insânia, observo de braços abertos o espetáculo de minha própria gênese. Enquanto isso, na cidade distante, os postes piscam suas luzes fracas, apiedados de mim.
Sinto o frio metálico e o açoite da chuva sobre a carne usurpada. Vejo seu rosto — olhos febris, brilhando com delírio e culpa. Seu sopro ardente toca o meu, e confundem-se a blasfêmia e a súplica. Grito. Ele grita. Estamos vivos? Uma tempestade perpétua ecoará por cada um dos meus dias. Trovões serão os gritos que ouvirei de agora em diante. Raios, os olhares que me cortarão em pedaços. A escuridão será meu refúgio. Em seus braços — nas dobras rasgadas do sonho — descubro-me: sou o experimento e o filho, a decepção e o horror. Sou o Monstro.
Fujo de mim. Observo a família através da fenda na madeira e aprendo palavras doces que nunca direi. A eles ofereço lenha e flores silvestres, e recebo o terror estampado em seus rostos. O cego, a quem me atrevo a falar, não verá minha face coberta de trapos — ouvirá, apenas, minha voz trêmula. Homens, outros, não enxergarão meus olhos, apenas as costuras malfeitas no meu pescoço. Mulheres fugirão, tomadas de asco e pavor. Empunhando archotes, bradarão impropérios, e suas crianças esconderão o rosto com as mãos pequenas, pois serei a fábula de terror que sussurrarão à noite, antes de dormir. Aprenderei. Observarei o que eles desprezam: a neve suave sobre os abetos, o musgo verde crescendo sob o luar, a canção do riacho. Exaurido, vagarei pelas florestas gélidas, e minha única companheira será a solidão — à qual oferecerei minhas mãos remendadas.
Meu futuro será um inverno sem termo. Minha pele, que são muitas, cobre membros pesados, movidos por desejos que não são meus. A loucura alastra-se em mim como praga. Em fúria, queimarei os campos do homem que tocou o divino e ousou me criar; matarei irmãos de sangue e estrangularei a noiva que não pode ser minha. Mas tudo, esse viver, sofrer, amar e odiar, tudo isso cansa. Fruto da obsessão, horrível e sublime, eu nasci e jamais vivi. E depois de tudo, depois do nada, a fúria se esvai como chuva após a tormenta. A única beleza que resta é a primeira: a da criação, naquele instante de trovões e de luz.
Já não desejo vingança, nem amor. Irei para o extremo do mundo, onde o gelo do norte há de apaziguar o fogo em minhas veias. Cercado pelo infinito, tomarei a derradeira decisão: como Prometeu, restituirei a centelha roubada. A energia retornará à tempestade, o corpo, à terra. E o sonho — que jamais deveria ter existido — adormecerá congelado no Ártico. O frio eterno, com seu silêncio branco e sem mácula, não será minha solidão, mas repouso e sudário.
E a escuridão quieta, sempre ela, finalmente me dirá: descanse em paz.

