Crianças, fotos e refris

Aqui na parede tem algumas, filho. Em cada fronteira, campo de refugiados ou área de guerra urbana, uma lembrança e um rosto. Ela sempre vai junto, claro — a Leica, companheira inseparável. Comigo ela viu de tudo, registrou o mundo, mas estas fotos aqui de um jeito diferente, especial. As crianças, seus rostos tristes, às vezes alegres (coisa de criança), sua inocência. Viajei por tantos lugares que já nem sei. E este meu costume, quase cerimonial, começou no Oriente Médio, entre ruínas e a fumaça de mais uma guerra. Um menino de oito anos me olhou com a serenidade e o cansaço de um velho e pediu o refrigerante quente que eu bebia. Dei-lhe e perguntei: “Como é viver aqui?” Ele respondeu que gostava do barulho dos aviões — achava que eram trovões de Deus. Quando fotografei, ele ergueu o olhar, firme, como quem desafia o céu. Na Somália, uma menina descalça, cercada de moscas e soldados armados, pegou a garrafa que abri como se fosse um prêmio. O gás escapou num estalo e ela riu, riu de verdade, como se todo o sofrimento à sua volta deixasse de existir. No Complexo do Alemão, logo após uma batida policial, vi um garoto recolhendo cartuchos de bala. Perguntei se ele queria um refrigerante e se eu poderia tirar a fotografia. Ele disse que sim, mas que preferia uma garrafa com água. Entreguei. Ele não sabia se ria ou se ficava sério na foto. Ficou no meio-termo — como era tudo ali à sua volta: um meio-termo entre o ruim e o pior. O clique da câmera soou como um tiro no silêncio incomum naquela comunidade e, por um segundo, ele se encolheu instintivamente. Depois fez um sinal de positivo e riu, envergonhado, como quem pede desculpa por ter medo. Já não sei quantas vezes repeti o gesto — o refrigerante, a pergunta, a foto. Sempre as mesmas palavras, os mesmos olhos de infância perdida, uns que tentam sorrir, alguns vazios, outros cheios de raiva. Todos me atravessam, parecem me desafiar a fazer algo. Depois se levantam e vão embora. Às vezes penso se faço bem em registrar esses rostinhos; se não estaria roubando o pouco de dignidade que lhes restou. Mas então lembro que, quando mostro as fotos, há quem chore. Há quem queira ajudar. Há quem realmente ajude. Isso, de certo modo, me conforta. E assim continuo.

— Sebastião, a janta tá pronta! Desçam!

Já acomodados, pai e filho observam a mulher depositar as últimas panelas sobre a mesa. Eles se servem, a comida é cheirosa e na medida certa — nem muito, nem pouco. O pai se levanta, vai até a geladeira e pega uma lata de cerveja. A mãe faz uma careta brincalhona, admoestando. O filho pede “um refri”. Ele retira a garrafa pequena e a coloca diante do menino, que a cada dia lhe parece mais crescido. A imagem o faz pensar: é só um menino, seu filho — sem violência à sua volta, sem a poeira da guerra, sem o barulho de tiros rasantes nem o choro de pais e mães em desespero. Sem dizer nada, ele agradece. Não aos céus, não a um deus ou outro — a ninguém. Só agradece. Seu voo parte bem cedo no dia seguinte. Naquele mesmo horário, mais tardar dois dias, ele já estará em Gaza.

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