I hurt myself today / To see if I still feel
I focus on the pain / The only thing that’s real
Hurt – Johnny Cash
Entardece. O bar atemporal, algo retrô-contemporâneo, tem paredes de tijolo à vista e uma janela grande de vidro que me permite enxergar o movimento lá fora. O quadro que vejo é recorrente (mea culpa, venho muito, sento-me quase sempre à mesma mesa). O som de fora eu mal ouço, o de dentro é nítido, sai de uma jukebox em bom estado de onde escapam blues. Revezam Coltrane, Nina, Waits e o dilacerante Johnny Cash. Ouço, vejo e sinto tudo acompanhado do meu uísque barato, que desce queimando. Típico. Minha realidade – também os sonhos – tem trilha sonora melancólica, entrelinhas tristes e álcool.
Acontece. Asfalto, cimento, os tijolos da parede refletidos, uma colmeia de janelas, carros, ônibus, pessoas – uma delas me olha, um homem já idoso, que logo perde o interesse. A rua larga e insípida, de poucas árvores e nenhum pássaro, combina com o céu encardido, feio, ambos sufocados por uma fumaça sem fim que vem do trânsito impaciente: máquinas liberam gás carbônico, hidrocarbonetos e dióxido de enxofre, sem filtro, numa combustão incômoda e fedida. No sinal, crianças interpelam veículos, malabaristas vendem doces e oferecem serviços, pedem pouco, suplicam muito. O vidro não abre, o sinal fechado perdura. Num segundo andar, gritos ecoam, repetidos e machucados: ela chora “pelo amor de Deus”, ele bate mais uma vez, ela se esconde e grita mais. Pessoas passam, mal ouvem (mas ouvem), vêm e vão. Dois homens de mão dadas cruzam com outro casal, marido e mulher de mãos atadas que fazem o sinal da cruz e resmungam preconceitos e versículos mal interpretados. Um músico de rua observa e entrega “Sultans of Swing”, do Dire Straits, que ali vale míseros aplausos e poucas moedas. A guitarra emudece, um grupo surge, são muitos, seguram faixas e levantam punhos, pedem emprego, igualdade, respeito, oxigênio, essas coisas… Mas só recebem detração e gás lacrimogêneo. Outros sons abafam meu blues interior, são balas de borracha, balas de verdade, tiros impondo uma ordem discutível, atravessando crianças, pais e mães. Numa quadra o policial mantém o joelho sobre o pescoço de um homem negro. Pessoas passam, mal veem (mas veem), uns registram, outros evitam. Ninguém consegue respirar.
Anoitece. E chove. No bar de paredes de tijolo, lotado, a cidade não se reflete. A música sobe o tom, o blues dá lugar ao jazz, Charlie “The Bird” Parker me preenche com seu improviso carregado de melodia. As notas sequestram, soam dentro de mim como murmúrios confidentes, às vezes trovões. Troco de bebida, vou do destilado para a cerveja, já não tenho estrutura ou fígado para tanto. À minha volta ninguém nota, nem se importa, ninguém olha pela janela onde a vida voa. Tempo, janelas, cimento, fluxo, tudo parece igual. Tenho medo dessa não mudança. Me apavora o diáfano desdém dessas pessoas que só passam. E me inquieta pensar que, por vezes, eu também mal as percebo (mas percebo) e nada faço. Mea culpa.

