A casa, simples e irrisória, tem paredes podres, duas janelas de onde nada se vê e uma porta lateral pouco convidativa. Diante dela, o jardim enfeitado de mato e desdém cultiva um varal de arame, mal ajambrado, onde três pedaços de pano puídos descansam. São vestidinhos de crianças, estampados com flores sem cor que teimam em parecer formosas apesar de toda a sujeira. Com ou sem vento, eles se mantêm rijos, obedientes, pendurados em interrogações invertidas num cenário que, mais que miserável, se mostra desvalido.
Desvalido como o velho fotógrafo que passa do outro lado da rua, nada mais que uma estrada de terra ensimesmada e cheia de pó que se estende num tempo que parou. Faz calor, e nada tem pressa ali: nem a estrada, nem o vento, nem o homem. Acostumado a inventar permanência onde só existe passagem, leva a câmera junto ao peito, tão indispensável quanto o coração que nele (ainda) pulsa. A máquina, extensão da memória, é a bengala de um olhar já cansado. A mão calejada, ansiosa pelo registro, se contém, e limpa o suor da testa cheia de sol.
Sol que já nem queima tanto, mas que alcança os olhos e, sem ofuscar, provoca imaginações: ele vê uma mãe no quintal desgramado, lavando roupas com as mãos rachadas de sabão, diante do tanque; um pai que derrete e cheira a suor, que chega derreado, de noite, da roça, ou de algum bico mal pago; crianças, três, de riso alto e gratuito, correndo pela terra abatida e brigando pelo mesmo brinquedo improvisado. Todos, apesar de tudo, tem os olhos cheios de esperanças bobas, que nunca dão em nada… Divagação ou lembrança?
Lembrança em forma de intento, como se ele tivesse vivido ali, ou desejado viver. O portão range, a porta se abre e a lente agora revela mais que o instante: a realidade. Lá dentro, nada. Nem móveis, nem vozes, nem cheiro de café. Apenas o chão virgem, as paredes nuas e o silêncio constrangido, cortado por raios de luz. As roupinhas lá fora? Ausências miúdas que já não brincam no quintal, não colhem azulzinhas nem se lambuzam das mangas que caiam do pé. A casa é um túmulo sem epitáfio, sem número na fachada, nem um zero sequer. Na estrada, um carro esparso buzina. O pensamento cede, o dedo aciona o disparador. Click!
O clique sai empoeirado, discreto como um pedido de desculpa. Registrou-se ali o retrato mais fiel daquela vida: puída, sem cor e abandonada. Vale a pena guardar a foto? Teria memória aquela família? As crianças existiriam? Continuariam brincando, teriam escola? Ou seriam engolidas pela mesma engrenagem que despeja sem dó homens e mulheres, meninas e meninos, retirantes de ombros curvados que, sem dar conta, carregam o peso do mundo?
Que mundo… Naquele dia, ele guardou a câmera como quem fecha um caixão e seguiu sem olhar para trás. Poucas fotografias depois, ao invés de palavras em sua lápide, restaria apenas aquela imagem, seu testamento de vida: o simples e irrisório registro de uma ampla ausência.


Lindeza de texto ❤️