Gustavo caminhava pela vida com a serenidade dos que já viveram muito. Senhor altivo, aposentado e viúvo. Dividia sua rotina entre atividades em home office e com Jarbas, seu vira-lata caramelo, companheiro que parecia compreender as saudades do dono. A ausência de sua esposa após mais de três décadas de parceria – levada por um malvado câncer – ainda lhe afligia, mas havia se tornado uma cicatriz pacífica, daquelas que não sangram mais, apenas lembram. Embora a dor tivesse dado lugar à saudade serena, o coração seguia sentindo falta – não de companhia qualquer, mas de presença. De alguém para rir junto, dançar, passear, ouvir rock, blues e jazz, assistir bons filmes ou simplesmente trocando diálogos e olhando o tempo passar.
Entre um café e outro, passava recordando não só da mulher amada, mas também de outras memórias. Foi num desses momentos de lembrança que ele recordou de Renata, sua coleguinha de jardim de infância. Dividiam brinquedos, merendas e segredos de criança. Uma ternura antiga que ficou guardada em alguma dobra do tempo.
Anos depois, ao cruzar uma movimentada rua, ele viu uma moça de rosto muito familiar vindo em sua direção. A feição, mesmo com as rugas de expressão e o peso dos anos, parecia gritar o nome dela. Os olhos se encontraram, os passos diminuíram e o coração bateu descompassado. Mas o medo venceu. Cada um seguiu seu caminho novamente e Gustavo guardou aquele arrependimento que pesaria por muitas estações.
O tempo passou. Jarbas envelhecia ao seu lado. Gustavo seguia com sua rotina de caminhar pelo centro da cidade. Em um feriado calmo, com ruas vazias, lojas fechadas e vento leve, algo o fez parar. Um instinto, talvez o coração ou o destino sussurrando de novo. Virou para a esquerda e lá estava ela. O mesmo olhar. A mesma aura de infância. E novamente, aquele instante ficou paralisado – mas desta vez, ele não hesitou.
- Renata ? – arriscou com um sorriso. E ela, com a ternura intacta no olhar e o mesmo brilho do recreio da infância respondeu – Sim, Gustavo.
A partir dali, o tempo deixou de ser espera e virou presença. Conversas longas, risos soltos, tardes de café, memórias partilhadas. O que começou na infância, sobreviveu à distância, à vida e até ao silêncio. O que era saudade virou encontro.
Agora, Gustavo já não caminha sozinho. O amor, aquele antigo companheiro adormecido, resolveu acordar. E veio manso, como Jarbas deita aos seus pés — amigo, fiel, constante, verdadeiro. E com tempo.

