Raio que te parta!

 

O sol ainda nem havia nascido quando Pedro já pulava de alegria, enquanto Paulo, bocejando, praguejava contra o mundo. “Raios! Quem inventou essa ideia de acordar antes do galo cantar?”, resmungava. O pai, animado, arrumava o carro e cantarolava Luiz Ayrão: “É como um raio de sol, beijando o amanhecer…”. Pedro acompanhava com o habitual sorriso generoso, vislumbrando um lindo dia ensolarado. Em oposição, Paulo – com os olhos semicerrados – murmurava: “Que raio de música…”.

 

A promessa estava sendo cumprida. Depois da aprovação na universidade federal, os gêmeos finalmente teriam o acampamento à beira do rio, sozinhos. Pedro via o dia como uma bênção, Paulo, como um prenúncio de desastre. Ao primeiro raio de sol, Pedro exclamou: “Que bom! Vai ser um abençoado dia!”. Paulo respondeu na lata: “Que bosta! Esse tempo ainda vai virar…”.

 

Durante a viagem, Pedro conversava com entusiasmo sobre o futuro, e Paulo, encostado no banco, só via desgraça no horizonte. “Se o carro quebrar, pelo menos você vai empurrar sorrindo”, zombou o irmão. Pedro gargalhou. “Claro, o importante é a aventura!”. “Raios!”, bufou Paulo, “aventura pra mim é dormir até mais tarde”. 

 

Ao chegarem, o pai passou as últimas instruções. Pedro, atento, ouvia tudo. Paulo, de braços cruzados, suspirava: “A mesma lenga lenga de sempre…”. Quando começaram a montar a barraca, Pedro assobiava animado. Paulo, agachado, cochichava: “Isso aí não vai ficar de pé, aposto um raio nisso…”.

 

E o azar parecia gostar dele. Bastou o vento soprar para voar a lona. “Que raio!”, gritou, “eu sabia!”. Pedro, porém, mantinha o bom humor. Montou tudo de novo, preparou as varas e lançou a isca. “Vai dar peixe!”, anunciou. “Vai dar é problema”, retrucou o irmão. E deu mesmo — mas não da forma que Paulo esperava. Como um raio, Pedro fisgou um belo bagre e o ergueu triunfante. “Olha só, Paulo! Nosso primeiro troféu!”. “Rabudo… vai ser o único do dia!”, respondeu o agourento.

 

Logo o céu escureceu. “Raios! Eu sabia que ia chover!”, gritou Paulo, enquanto as gotas grossas caíam. Em poucos minutos, a tempestade se transformou em espetáculo. E, como se o universo tivesse senso de humor, um raio verdadeiro despencou sobre a barraca, estourando tudo. Paulo imediatamente exclamou: “Daqui a pouco vai cair outro!” e Pedro respondeu : “Capaz mano, os raios não caem no mesmo lug…”. CABRUM! Outro raio, agora menor, caiu bem em cima do bagre, que ficou esfacelado à beira do rio. Pedro, oportunista, bravejou: “Eu avisei, eu avisei…”.

 

Por milagre, os dois saíram ilesos — encharcados, mas vivos. O pai chegou logo depois, assustado, interrompendo a “aventura” que prometia virar notícia no jornal local. No carro, Pedro contava sorrindo sobre o bagre gigante, e Paulo, cuspindo fogo, repetia: “Eu falei! Por que raios viemos pra essa infeliz empreitada?”.

 

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p class=”MsoNormalCxSpMiddle” style=”margin-top: 6.0pt;text-align: justify”>Foi então que Pedro, iluminado por um súbito humor irônico, virou-se e gritou: “Paulo! Vai pro raio que te parta!”. E, por um segundo, o irmão rabugento pareceu esboçar um sorriso,  como se, enfim, um raio de sol tivesse conseguido atravessar sua tempestade interior.

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