Olhares derradeiros

Diante da finitude tendemos acreditar que somos tudo defronte daquele corpo agora inerte, que recentemente era um de nós por aqui. Os olhares buscam capturar a essência, as peripécias, o som de sua voz e o austero jeito de conversar, que nesta ocasião, já fazem parte do nada. Memórias.

 

O conforto nos afaga através das lembranças agradáveis ou nem tanto, que todos no ambiente procuram reviver à sua maneira, enquanto os downloads estão sendo processados nos corações e mentes, entre olhares, abraços e lágrimas, ao som do enfadonho silêncio.

 

Por vezes somos privados das olhadelas remanescentes para aqueles que, em algumas ocasiões, estavam a brindar e a cantarolar conosco ainda ontem. Éramos tudo. Em outras ocasiões, observamos morosamente o nada apossar-se daqueles que hoje se desfazem em cinzas.

 

Conjecturamos em grande parte da vida sermos dotados de privilégios infindáveis como os imortais. Custa-nos dedicar alguma atenção ao irremediável fim, mesmo diante de tantos episódios vivenciados com fervor no cotidiano.

 

Com o passar dos anos, mais experientes e receosos, damos por conta que nossa despedida está mais perto que longe, e especulamos realizar feitos até então impensáveis, principalmente na esfera sentimental. Remorsos, perdões, rusgas e mágoas incorporam cargas cada vez maiores.

 

Ao me despedir daquele debilitado senhor de oitenta primaveras, consumido ao longo de alguns anos pelo Alzheimer, percebi que não era mais tudo e nem ele era nada. Éramos semelhantes despedindo-se desta etapa. Como um até daqui a pouco. O que fomos não passava de uma mistura de tudo o que poderíamos ser e fazer até então.

 

Assim sendo, confortamos um ao outro, nas almas, nos silêncios e nas remissões. Esperançoso, olhei sem pressa aquelas mirradas mãos entrelaçadas … quem sabe poderia escorrer por entre os dedos murchos, a moeda de dois cruzeiros que encontrei em cima de um bueiro de esquina quando voltava do colégio e corri até nossa casa para entregar a ele.

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