Navegante das ruas

 

Telêmaco Silveira conheceu o movimento da cidade pelos olhos da janela de um ônibus. Cobrador da Carris por boa parte da vida, começou ainda moço, quando a impecável farda cheirava a novidade e o asfalto brilhava de chuva e esperança. Entrara na empresa Bianchi, linha 8, que pairava no bairro IAPI. Os ônibus Eliziário, com carrocerias imponentes, desfilavam verde e amarelo pelas avenidas — era o Brasil sobre rodas.

Com o suor de cada dia, Telêmaco comprou um apartamento simples, pago em prestações sofridas e noites de economia. Ali cresceu a vida, entre o ronco dos motores e o apito da buzina ao amanhecer. Quando a Bianchi foi incorporada pela Carris, ele migrou junto, fiel como soldado de batalhão. A linha T2 virou sua segunda casa, que seguia margeando o IAPI.

O dinheiro enrolado entre os dedos foi hábito e símbolo. As notas dobradas com esmero e em ordem crescente, formavam um arco-íris de papel e paciência que facilitavam todo tipo de troco. Andava pelo ônibus com leveza de quem sabia em qual bolso cada centavo morava. Às vezes, precisava correr atrás de algum passageiro distraído — ou malandro. Com a instalação das catracas e cadeirinhas, o corre diminuiu. Passou a assoviar ou soltar um grito em código para o condutor seguir viagem e, por vezes,  segurar a partida até o último espevitado embarcar.

Mas o destino, esse cobrador invisível, não dá troco. Um acidente grave levou-lhe uma perna e, com ela, a rotina dos ônibus, o manuseio das cédulas, o cheiro de diesel. A empresa o desligou com frieza de papel timbrado. O benefício do INSS mal dava para o pão e o café. Ainda assim, Telêmaco não se curvou.

Virou homem de bicos — camelô de lembrancinhas nas datas comemorativas e também nos domingos de futebol, como cambista. Carnaval, Natal, dia das Crianças, dos Pais, das Mães, Finados, Páscoa e, no dia de Nossa Senhora dos Navegantes, assim como nos grenais, fazia sua melhor arrecadação, sob o sol e a fé dos devotos e torcedores fanáticos.

<

p class=”MsoNormal” style=”text-align: justify”>Telêmaco foi guerreiro, marido fiel, pai de fibra e sorriso fácil. Nunca reclamou da vida — talvez porque, no fundo, ela sempre o levou adiante, como um velho ônibus que, mesmo cansado, ainda encontra as ruas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima