Sou feita de tábuas antigas, cheias de nós e memórias, e é daqui que conto minha história.
Nasci das mãos trêmulas, porém convictas, de um casal que trazia no peito uma dor silenciosa.
Perderam o único filho num inverno rigoroso, bem ali perto, onde a trilha se perde na neve.
Ele adorava explorar montanhas, mas naquela noite faltaram-lhe forças, abrigo e suprimentos.
A nevasca não deu trégua, e o mundo inteiro pareceu ficar branco demais para que retornasse.
Foi depois dessa perda que eles decidiram me construir, como quem ergue um altar para a fé.
Cada martelada vinha acompanhada de lágrimas contidas, mas também de um carinho novo.
Eu fui me tornando um lar para quem passasse, não apenas um abrigo de madeira.
Aqui, viajantes e trilheiros encontram camas simples, porém quentinhas e limpas.
A cozinha exala cheiro de algo acolhedor, como se quisesse abraçar quem chega cansado.
Nos banheiros, a água quente cai como o alívio que a montanha costuma negar.
Mapas cobrem minhas paredes, rabiscados por mãos curiosas e cheias de aventura.
Informações do tempo ficam expostas como alertas de um guardião atento.
Há também contatos de emergência, colocados ali com zelo quase paternal.
Mas o que mais me define são as vozes que preenchem meu interior.
Riem, contam histórias, compartilham medos e superações das trilhas geladas.
Sou testemunha de amizades que nascem no calor de uma caneca fumegante.
Vejo olhares que chegam tensos e partem iluminados, como se renascessem.
No meu canto leste, um gerador potente mantém carregados celulares e GPSs.
Ele ronca como um velho amigo fiel, sempre pronto a ajudar.
O casal me cuida com tanto amor que às vezes me sinto parte da família.
Eles dizem que ajudo a manter viva a memória do filho que se foi.
E eu acredito que ele ainda caminha por aqui, entre meus corredores.
Às vezes, o vento bate nas minhas taipas como passos leves.
Talvez seja ele, guiando outros para que não enfrentem o mesmo destino.
Nas noites de tempestade, eu abraço todos que entram com o corpo trêmulo.
E me orgulho de ser este porto seguro em meio à neve impiedosa.
Como um coração de tábua, pulsando entre montanhas silenciosas.
Já vi lágrimas caírem de alívio, e não apenas de tristeza.
Vi celebrações improvisadas após trilhas vencidas.
Vi até reencontros inesperados no romper da aurora.
Cada história ecoa em mim como marcas que não se apagam.
E, a cada nova chegada, acrescenta uma lasca ao meu propósito.
Sou mais do que paredes e telhado: sou um abraço construído.
E enquanto houver trilheiros buscando acolhimento, permanecerei firme.
<
p style=”margin: 0cm -14.55pt .0001pt 0cm”>Pois fui criada para amar, e isso me mantém viva. Assim como as memórias.

