Cativeiros

 

O sol nasce igual para todos, dizem.

Mas em El Fasher ele rasga o céu em fogo.

Em Porto Alegre, o mesmo sol repousa manso sobre o bairro Mont’Serrat.

Três crianças sudanesas despertam entre os corpos frios dos pais e avós.

Três crianças gaúchas despertam entre travesseiros de pluma e lençóis de linho.

O som que ecoa lá é o estalo das balas e dos gritos desesperados.

Aqui, o som é o tilintar dos talheres de prata sobre as porcelanas.

Eles respiram medo, poeira e sangue.

Elas respiram o aroma doce do suco de laranja fresco.

Um deles pergunta em silêncio – Por que estamos vivos?

Um deles pergunta alto – Mãe, posso repetir o croissant?

O desjejum dos primeiros é o nada.

O dos segundos é uma celebração do excesso.

Os pés nus pisam lama, galhos secos e cinzas.

Os cheirosos tocam tapetes felpudos e depois, tênis importados.

Lá, caminham sem destino, guiados apenas pela fome.

Aqui, seguem em direção ao clube, guiados pelo GPS do carro de luxo.

O sol da savana fere seus rostos rachados.

O sol da manhã reflete nos óculos escuros das crianças loiras.

No Sudão, a quadra é o chão seco onde tropeçam na esperança.

Em Porto Alegre, a quadra é de saibro, onde aprendem a vencer sorrindo.

Lá, a bola é uma rocha – o jogo é sobreviver.

Aqui, a bola é de feltro – o jogo é passatempo.

Na selva, eles sonham com água.

Na associação, escolhem entre refrigerante, suco ou água de coco.

Lá, o ensopado de legumes é um rumor distante – talvez uma lembrança.

Aqui é banquete: saladas, lagostas, camarões e risadas douradas.

O silêncio dos três sudaneses pesa como o mundo.

O riso dos três brasileiros flutua como penacho sobre taças de cristal.

Lá, a tarde é longa, de passos lentos e sede infinita.

Aqui, a tarde é curta, de cinema privado e chocolates da Duty Free.

Um deles fecha os olhos – imagina abrigo e acolhimento.

Um deles fecha os olhos – escolhe o próximo filme.

À noite, os órfãos se deitam sob estrelas duras e indiferentes.

À noite, os abastados se deitam sob luzes mornas e cuidados de criadas.

Nenhum dos dois grupos entende bem o que é sorte.

Nenhum dos dois sabe o que o outro vive.

Amanhã, talvez os sudaneses ainda caminhem.

Amanhã, talvez os gaúchos planejem o safári prometido pelos pais.

Os sobreviventes torcem para não encontrar uma fera igualmente faminta.

Os mimados viajarão à África para ver leões livres.

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p style=”margin: 0cm -14.55pt .0001pt -7.1pt”>Mas os verdadeiros reclusos são aqueles que nunca enxergam a dor dos outros.

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