Ayahuasca

 

Era uma tarde quente na tribo Marubo, Vale do Javari, sudoeste do Amazonas, onde há muitos anos,  o rio serpenteava como cobra preguiçosa e o tempo parecia dormir na rede. O velho Wino Këyshëni estava sentado em seu tronco preferido, aquele polido por gerações de bundas indígenas, mascando um pedaço de mani e saboreando o sossego quando seu netinho de olhos curiosos, que ainda acreditava que o trovão era o espírito batendo tambor, perguntou: – Vovô, porque nossos nomes são tão… engraçados?

Wino deu uma gargalhada que assustou até as araras.

– Ah, meu pequeno, essa história é muito interessante, senta aqui pertinho do vovô. Tudo começou quando seu pai Wanôpa e seu tio Ivinipapa beberam um pouco demais da ayahuasca sagrada.

– Um pouco vovô? – perguntou o menino.

– Bueno querido neto, vou te dizer o que aconteceu…

Wino então contou que eles ficaram dois dias e duas noites mais perdidos que peixe em terra firme. Bebiam e dançavam, achando que falavam com os deuses, mas as entidades estavam ocupadas demais rindo deles. Até que, no meio do transe, se viram navegando numa piroga por águas que brilhavam como olhos de jaguatirica, sob um colorido jamais visto, de um sol quase sumindo no horizonte.  Remaram até ver uma maloca gigantesca cheia de luzes, sons e gente dançando de um jeito que nem o pajé sabia imitar. Os estranhos nativos dali andavam cobertos por panos, falavam rápido e ofereceram tecidos coloridos para cobrir as vergonhas dos visitantes amazônicos. Vestiram as roupas e logo ganharam apelidos carinhosos: Índio Remando e Índio Abanando, dizendo que ali era um porto. Com toda aquela animação, Wanôpa também apelidou o lugar:  Porto Alegre.

Os novos amigos os levaram para o Bom Fim, numa maloca denominada Escaler, onde serviram uma bebida dourada e espumante – chamavam aquilo de cerveja. Ivinipapa tomou um gole e disse: “Hummm… parece com a nossa caisuma de mandioca fermentada com saliva, só que feita por preguiçoso! Muito ralinha, mas vai!”.

Em seguida, continuaram a peregrinação pelas terras dos “brancos dançantes”, chegando às Catacumbas da UFGRS, uma maloca subterrânea e muito escura, onde todos pulavam, riam, bebiam cerveja e tragavam fumaças de ervas enroladas em papel mágico.

Depois, famintos, foram para outro local que designavam de Van Gogh, onde comeram tanto que juraram ter engolido até os deuses do milho.

Quando o sol nasceu, Wanôpa acordou abraçado a uma estátua e Ivinipapa com um violão que jurava ser uma tartaruga falante. Voltaram à piroga, remaram até o mundo girar, e quando abriram os olhos… estavam novamente na aldeia, de ressaca espiritual e física.

Passaram-se várias estações chuvosas e menos secas, e os irmãos, ainda com Porto Alegre na cabeça, fizeram um pacto: “Quando tivermos filhos, daremos o nome da primeira coisa que virmos ou sentirmos ao sair da maloca!”.

 

Assim – concluiu o velho Wino, com um sorriso maroto – sua irmã virou Chuva Caindo, seu irmão Vento Frio, suas primas Lua Brilhante e Lagoa Calma… Entendeu Cachorro Mijando?

 

E foi desta maneira que a tribo inteira aprendeu que certos nomes são dádivas dos deuses – e outros, infortúnios da natureza. Ou depende só da ayahuasca?

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