Naquele final de tarde frio e chuvoso, Bernardo retornava para sua casa depois de visitar seu avô Francisco, hábito de boa parte das tardes de quartas-feiras, dia de sair mais cedo da escola.
Entorpecido, caminhava inquieto em direção ao ponto do ônibus, perplexo com a imensa quantidade de informações que o Vô Chico havia lhe proporcionado naquele encontro que, de longe, fora o mais inusitado.
Ao contrário das visitas anteriores, quando mais falava que ouvia, pois descrevia suas facetas estudantis, destreza nos videogames, contatos virtuais, maestria nas redes sociais, os maravilhosos encontros familiares, os almoços dominicais com os pais em locais requintados e as últimas férias nas estações de esqui da Suíça, naquela tarde em particular, o café com os deliciosos bolinhos de chuva da vovó Eugênia, a oratória foi do veterano.
Sem qualquer regramento, Francisco dissertou sobre profusos assuntos da atualidade que imaginara, com razão, que o adolescente não teria interesse nem consciência.
Comentou o ancião, acerca do golpe que os aposentados sofreram com descontos indevidos nos benefícios, os sequestros relâmpago que motoristas de aplicativo têm praticado, o feminicídio no país, mencionando inclusive, que durante aquele aprazível momento poderia estar acontecendo, o cotidiano prende/solta dos meliantes, os abandonos de animais junto ao leito das rodovias, com focinhos e patas envoltos com fita isolante, a morosidade das obras públicas que contrastam com as exorbitantes construções da iniciativa privada, as balas perdidas na periferia, a governança das milícias mafiosas nas favelas, o viciante e escancarado sistema de apostas, a segurança insegura, a falência da arbitragem no futebol tanto do trio em campo quanto do VAR, os sistemas de comunicação por máquinas que não atendem o que é preciso, a rotineira queda de energia ao menor indício de vento ou chuva, o emaranhado de fios soltos nas esburacadas calçadas, os vírus letais, a delonga nas consultas e exames no sistema de saúde pública, os exorbitantes dízimos dos templos religiosos, os constantes conflitos armados entre nações, o olhar aflitivo das pessoas em situação de rua, a precariedade do sistema penal e carcerário, os negligenciados esgotos a céu aberto, os frequentes estupros acometidos não importam onde e nem classe social, os tráficos generalizados, os abusos de crianças, o indisciplinado descarte de lixo, o descaso para com o patrimônio arquitetônico, a confusa e injusta legislação tributária, a execrável condição dos políticos, as horrendas peleias trogloditas no trânsito, os incessantes atos discriminatórios, a corrupção generalizada, o desprezo com as questões ambientais, as injustiças da justiça, as desigualdades sociais, o fascismo, a fome persistente, a baderna dos influencers digitais, as bonecas Reborn …
O desarranjo, que ainda retumbava em sua cachola, como o rufar dos tambores da Olodum, lhe apresentou um timbre diferente, como um tengo-lengo que persistia tilintar por entre a percussão, quando Bernardo lembrou uma das últimas palavras do vô Chico, que jamais havia escutado.
- Estamos vivendo também uma distopia meu neto querido, porém não temos percepção suficiente para distinguir e nem mesmo entender.
Assim sendo, as tardes de quarta-feira nunca mais foram as mesmas.

